sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Ethos, Pathos e Logos. Um caso prático




O Ethos, Pathos e Logos são apresentados como três elementos fundamentais do discurso persuasivo. Não se mostram de modo igualitário mas revelam diferentes entoações de acordo com as tendências políticas. Este vídeo de Hitler mostra bem a marca propagandista de uma ideologia extrema. Neste contexto, qualquer que seja o lugar desse extremo no espetro político, os meios são basicamente os mesmos.

Goebbels, principal responsável pela comunicação do partido, faz a introdução com um intuito muito próprio: o de conglomerar as vontades, elegendo inimigo o comum. Prepara o espetador, impulsiona uma vontade comum, fomenta um Pathos tendo em vista a entrada esperado pelo meio da multidão do macho alfa. Com uma passada assertiva e uma linguagem corporal convicta, Hitler acelera o seu passo para se aproximar do púlpito onde fará o seu discurso.

O logos parece evidente. Começando por mostrar uma postura de espera pelo silêncio - ethos - (apesar do seu óbvio nervosismo e fragilidade), depressa vai ao encontro daquilo que o apoquenta. A derrota e a assinatura do armistício em 1918 funciona como o leit motiv da sequência lógica do seu argumento. A ideia funciona. Face a uma plateia atenta, a sua voz  tende a ser progressivamente mais forte acompanhando a situação cada vez mais negra da situação alemã. Não é por acaso que, ao inumerar o desemprego, o faça de modo teatral, construindo uma espécie de bola de neve. O Pathos está ao rubro fomentado por um Logos bem estruturado e simplista. A culminação do seu discurso está na elevação da sua pessoa como aquele de quem depende a salvação. A conclusão do Logos está na afirmação do Ethos. «A minha luta» é transformada na «nossa luta». Quer mostrar-se um homem comprometido com o seu povo, um homem que soube esperar, um homem que necessita de 4 anos para transformar. É a definição total do Ethos numa autoglorificação que promove uma reação emotiva de Goebbels e o consequente Pathos da plateia. 

Qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Os Graus de Falsificabilidade




Um dos assuntos mais complexos e simultaneamente mais controversos em Popper é o grau de falsificabilidade. Existem proposições que são mais falsificáveis do que outras, assim como teorias. Este tema pode ser conjugado com a questão do progresso científico. De um modo geral, Popper considera que existe progresso científica caso as novas teorias suscitem problemas que anteriormente não haviam sido considerados. Por outras palavras, o progresso científico consiste na passagem de velhos problemas para novos problemas através de conjeturas e refutações, isto é, a ciência progride caso se encontre teorias com maior probabilidade de ser falsificadas do que aquelas que foram substituídas. O critério de progresso       (Conjeturas e Refutações) é então o seguinte: uma teoria com maior conteúdo empírico é aquela potencialmente mais refutável.Como saber que uma teoria é mais falsificável? Quais as que melhor se predispõem a ser refutadas?

Por exemplo:
a) Sábado fará bom tempo.
b) Sexta feira choverá.

Ambas as proposições são falsificáveis em grau semelhante. Da mesma forma, ambas têm o mesmo grau de probabilidade. Contudo, se juntarmos a) e b)

ficaremos com «Sábado fará bom tempo e Sexta feira choverá». Temos então um maior conteúdo empírico comparativamente com as proposições isoladas, mas uma menor probabilidade. Portanto, a razão existente entre a probabilidade e o conteúdo empírico é inversamente proporcional. Quanto > for o conteúdo empírico < é a probabilidade ou, por outras palavras, quanto maior for o conteúdo empírico maior a improbabilidade.

CE de a) < CE de ab > CE de b)  

P de a) > P de ab < P de b)

Exemplos:

Entre as afirmações a) Sábado nevará na Serra da Estrela. e b) Sábado, pelas 20 h nevará na Serra da Estrela, a afirmação mais improvável é a b) por isso é a que possui maior informação, ou seja, maior conteúdo empírico. É mais provável que neve quando nos referimos ao dia todo do que a uma hora específica. 
Da mesma maneira, entre as frases c) As aves têm asas e d) Os pardais têm asas, a frase com menor probabilidade é a c) por isso, tem > conteúdo empírico e é mais falsificável.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Poder

Será possível definir poder? Wittegenstein traz-nos uma transmutação significativa quanto aos conceitos, entendidos como noções. Quando definimos algum conceito é difícil encontrar pontos de intercepção, apesar de dizermos o conceito. Por outras palavras, dizemos que o criket ou o futebol, a natação ou o xadrez são desportos apesar de se encontrar entre eles aspectos diferenciadores: o carácter competitivo, as noções de perder e ganhar apresentam nuances particulares. Wittegenstein concluiu, então, que o que existe é «uma rede complicada de parecenças que se cruzam e sobrepõem umas às outras. Parecenças de conjunto e de pormenor» (Wittengenstein, Investigações Filosóficas, F.C.G., Lisboa 1997). A forma encontrada para nomear esta ideia foi o termo «família», na medida em que os membros de uma família apresentam particularidades individuais e porque percorre nesse conjunto uma transversalidade de aspectos que determinam o significado, o nome. Consequentemente, quando falamos em Poder não devemos descurar a intercepção de uma multiplicidade de aspectos que se cruzam e promovem uma certa identidade.

Uma particularidade muito presente nos textos bíblicos é a adequação do bem face ao poder. Na leitura da Epístola aos Romanos, S. Paulo evidencia a necessidade de um bom cristão se submeter ao poder. O próprio Santo Agostinho nas Confissões identifica o pecado original com o pecado da desobediência. Obviamente que S.Paulo, além de ter em mente fundamentar uma convivência pacífica com Roma, sabia que Jesus Cristo era o alfa e o ómega, o princípio e o fim (ver Álvaro Pais, Espelho dos Reis); o poder temporal, humano, está ao serviço das vicissitudes pecaminosas do homem, o que não significa que Deus não esteja lá presente, pelo menos mediatamente, por que imediatamente estão os seus representantes, o que, no caso de S. Paulo, se concretizara. Portanto, «submeta-se cada qual às autoridades constituídas. Pois não há autoridade que não tenha sido constituída por Deus e as que existem foram estabelecidas por Ele.» (São Paulo, «Epístola aos Romanos», in Bíblia Sagrada, Verbo Lisboa, 1982, pág. 1291). O horizonte desta postura pode ser encontrado num conceito muito caro à tradição cristã em geral e católica em particular: a Unidade como contraponto à diversidade, esta sim, pode protagonizar a pulverização e o pecado, a divisão e a desordem, o primado da matéria sobre o espírito.

Levi strauss: A escrita e o poder.
Em Tristes Trópicos, Levi Strauss, através da sua epopeia junto dos Nambiquaras apresenta a situação da escrita face à cultura. Numa perspectiva empírica somos levados a considerar a escrita algo como concernente à expansividade intelectual em detrimento do carácter sociológico. Ora, Strauss demonstra a predominância deste face ao intelectualismo. O chefe, aquando da apresentação do lápis e do papel, facilmente depreendeu a utilidade da escrita embora não tenha exercido qualquer intenção significativa. Embora «o seu símbolo fosse utilizado, a realidade continuava estranha» (Levi Strauss, Tristes Trópicos, capítulo XXVII). Facilmente se constatou que a utilização de «traços» por parte do chefe serviu, acima de tudo, para a efectivação do poder. Strauss descreve a cena de tal forma que nos transmite uma imagem do que seria a representação do chefe face à escrita e a consequente admiração de que era alvo pelos seus súbditos. Esta descrição levou Strauss a demonstrar, através de exemplos históricos, a função primordial da escrita: manutenção do poder. Poder-se-ia objectar esta ideia a partir da constatação da importância da escrita no desenvolvimento científico dos séculos XIX e XX. Contudo, Strauss diz que a escrita é condição necessária mas não suficiente (Levi Strauss, op.cit), na medida em que o período com maior desenvolvimento humano – neolítico – não coincidiu com a descoberta da escrita. Desta forma, a escrita sugere um rosto de manifestação imperial e manutenção de territórios. Inclusive, a luta contra o analfabetismo possuiu uma intenção que visava, acima de tudo, o reforço e o controlo do poder. Porquê? Por que «ninguém pode ignorar a lei» (Levi Strauss, op.cit).


A partir da descrição feita do chefe dos Nambiquaras na obra de Levi Strauss, parece claro a existência de uma liderança legitimada pela sua acção: na resolução dos problemas, na antecipação de situações, dinamismo na escolha de itinerários, em suma, o chefe é o que expõe, criando uma identidade grupal. Max Weber define bem este poder: «Probabilidade de impor a vontade a outrem.» (Max Weber, Três Tipos de Poder Legítimo,trad. Artur Mourão, www.lusosofia.net. Pág.3).
O Poder Legal caracteriza-se por uma autoridade possuidora de dois elementos fundamentais:heteronomia e heterocefalia. É resultado de uma vontade exterior ao indivíduo e, por isso, é formal. A regra é o seu leit motiv e o seu ideal é ordenar de acordo com objectivos pré-definidos. O objecto é burocrático, encontrando-se materializado, segundo Weber, nos modernos estados e nas empresas capitalistas (Max weberopcit. Pág. 4).
O Poder Tradicional existe para além da legalidade, legitimando-se na tradição dando corpo à máxima «valendo desde sempre» (Max Weber, op.cit , pág. 5). A dominação patriarcal é o seu máximo expoente e possui raízes numa subordinação inevitável face ao poder tradicional. Cria-se, por isso, uma rede de dependências, exercendo o governo por meio da aversão, da emoção, do agrado e, acima de tudo, dos favores pessoais. Weber apresenta dois tipos de poder tradicional: o poder segundo ordens e o poder puramente patriarcal (Weber, op cit, pág. 5 e ss). O primeiro está vinculado à estrutura patriarcal (clã, chefe de família…), é o tipo mais puro do poder tradicional; o segundo representa mais um nível de administração mas cuja servidão lhe está intimamente ligada. A posse é traduzível por este tipo de poder em que os meios de administração são inteiramente desenvolvidos e legitimados pelo senhor, diferenciando-se, por isso, do poder legal pela sua forma intrínseca de deliberação de normas.
Finalmente, o poder carismático vai corresponder com uma ruptura do poder tradicional. Reconhece-se no líder a capacidade para desviar as relações habituais.Caracteriza-se por uma dedicação especial, pelos seus discursos, revelações mágicas, pela postura heróica, a uma pessoa. Os seus tipos mais puros são a autoridade do profeta, o herói guerreiro e o demagogo. Este último é uma invenção dos estados ocidentais contemporâneos; os outros dois correspondem a mecanismos mais ancestrais, embora actualizantes, próprios de uma tradição judaico-cristã. O herói corresponde ao Herzog,ao guerreiro carismático com o seu séquito (Weber, opcit, pág. 10 e ss).

sábado, 2 de janeiro de 2016

Popper. Os mundos, o critério de objetividade e o falsificacionismo.


Karl Popper

Os mundos 1, 2, 3. Falsificacionismo e critério da objetividade.


Inerente à problemática mente-corpo (deslocalizando-se das perspetivas monistas ou dualistas), Popper propõe uma visão pluralista no que toca à realidade.
Mundo 1: Objetos pertencentes ao espaço físico: nele se inserem os objetos naturais e os objetos produzidos pelo homem. Há objetos que pertencem simultaneamente ao mundo 1 e mundo 3. «Tudo o que se pode pontapear e devolver o pontapé» (p. 117 O Conhecimento e o Problema Mente-Corpo)
Mundo 2: Mundo psicológico, consciente, corresponde à subjetividade e às respetivas disposições para agir.
Mundo 3: Produtos do espírito humano. Nele se insere a ciência, os argumentos as teorias e o erro.
Face a esta apresentação, quais as características da realidade?
1.      Visão pluralista. Rejeição do monismo, no sentido behaviorista, fisicalista ou material. A existência de qualquer um dos mundos não é exclusiva.
2.      As teorias, próprias do mundo 3, interagem com o mundo , basta pensar nas implicações das produções humanas, tais como centrais nucleares, arranha-céus ou outros…
3.      O mundo 2 existe porque nós temos de compreender uma teoria do mundo 3 antes de a podermos usar do mundo 1. Compreender é uma questão mental. mutatis mutandis, o mundo 2 necessita do mundo 1. O cérebro, uma realidade entre outras, produz pensamento. Numa frase própria de Searle, cérebros (mundo 1) causam mentes (mundo 2).
4.      A relativa autonomia do mundo 3. Existe uma parte constituída por conteúdos de pensamento objetivos que são independentes e claramente distintos dos processos de pensamento subjetivos. Por exemplo, existem números naturais (1,2,3,4…) que são inventados por nós. Mas, se pensarmos nos números pares ou primos já são formas compreensivas, não são inventados mas descobertos por nós. Os números naturais são inventados, mas existem consequências involuntárias desse produto do espírito humano. Descobriu-se que quanto mais se avança na sequência dos números naturais mais raro se torna a ocorrência de números primos. Esta é uma propriedade autónoma do mundo 3. (pág. 121, Op. Cit.)
5.      Contudo, a verdade ou a falsidade dos acontecimentos do mundo 3 depende do mundo 1, do próprio padrão da realidade, garantindo-se a objetividade da construção humana.

O MUNDO 3
A ciência é uma produção do espírito humano mas como aplicações normativas o que determina a sua autonomia. Tal como referimos, o conhecimento objectivo pertence ao mundo 3 mas com sérias repercussões no mundo 1 (op. Cit. P22)
Definição de ciência: «Supersimplificação sistemática da realidade, isto é, a arte de discernir aquilo que podemos omitir com vantagem para nós.» p 59 ( Universo Aberto.). É uma realidade própria do mundo 3 porque resulta de uma interpretação do mundo 2 sobre o mundo 3. Se procurarmos a objectividade, é no mundo 3 que a podemos encontrar. O conhecimento objectivo possui uma vasta aplicação, vai desde registos, gráficos, construções, hipóteses, suposições e, acima de tudo, problemas.
1.      A simplificação da descoberta científica consiste na construção de rede por forma a «apanhar» a realidade. O progresso científico é, pois, a construção de redes cada vez mais bem adaptadas. Essas redes são da nossa autoria, são racionais e não são uma representação da realidade.
2.      O mundo é complexo. Ainda que por vezes as teorias revelem alguma simplicidade, não implica a intrínseca simplicidade do mundo.
3.      A função dessa rede é encontrar problemas a partir do seguinte esquema:
P1(problema de partida)®TE (teoria experimental)®EE(eliminação de erros)®P2 (problemas finais).

A Verdade

    Popper parte da convicção da existência de verdade de forma objetiva e absoluta. No sentido de ultrapassar as tendências subjetivas da verdade (Popper, Conjeturas e Refutações) consideradas nas teorias coerentistas, na teoria da evidência e a teoria pragmática ou instrumentalista, Popper atribui a Tarski uma importância fundamental na definição da verdade. Efetivamente, o lógico polaco coloca a tónica da verdade na estrutura lógica de uma bicondicional: «o mar é líquido» se, e só se, o mar for líquido Assim, a verdade deve ser definida relativamente a uma determinada linguagem e estar de acordo com a condição da não-criatividade (não se pode obter novos teoremas por consequência da definição) e da eliminabilidade (a qualquer momento o definido pode ser substituído pela definição). São estas as condições - e não os critérios - para que uma sentença seja verdadeira. Popper conclui daqui que a verdade existe apesar de não sabermos se algo é verdadeiro. O trabalho do cientista assemelha-se muito a um alpinista (Popper, op.cit), apesar de saber que a verdade está no cume e que para lá caminha, o seu trabalho consiste em encontrar obstáculos passíveis de serem contornados. Aquilo que alcança são verosimilhanças.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Estrutura das Revoluções Científicas. Pequena Análise




A. Leitura da Introdução e do Capítulo 1 de A estrutura das Revoluções Científicas e explicação do que Kuhn quer dizer com "ciência normal" e "paradigma".
Ciência Normal:
1- Pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas.
2- Institucionalização do paradigma. Reconhecimento por parte da comunidade científica dessas realizações.
Paradigma:
1- Teoria ou conjunto de teorias que formam uma visão do mundo e diz o que é a ciência. Matriz, critério para a escolha de problemas.
Para Kuhn, o termo Paradigma possui vários aspectos, entre os quais:
2- Lógicos: modo como estão organizadas as principais equações e os principais pensamentos. Ex.: para Newton f=m.a, para Einstein e=m.c2.
3- Metafísicos: modo como se concebe a realidade. Para Newton a natureza é um conjunto de partículas sob a acção de forças.
4- Axiológicos: Um paradigma consiste numa interpretação que revela simplicidade e coerência na forma como as teorias resumem a realidade. Aliás, estas características contribuem para a sua aceitabilidade por parte dos cientistas.
5- Aspectos técnicos: O paradigma também reflecte modelos de resolução dos problemas e promulga técnicas e métodos adequados de investigação. Além disso, o paradigma transporta consigo determinados aspectos conceptuais muito próprios. Ex. A teoria da evolução das espécies de Darwin possui uma manta de conceitos muito específicos.
6- Aspectos sociológicos: O paradigma reflecte um acordo consensual por parte da comunidade científica. Para tal, o defensor do paradigma terá de apresentar uma proposta, uma visão do mundo, de forma convincente e persuasiva.

B. No capítulo 2 de A estrutura das revoluções científicas, Kuhn afirma que há "três focos normais para investigação científica dos fatos". Explicar em que consistem esses três focos.

1- Determinação do facto científico. Determinar quais os factos significativos num determinado âmbito paradigmático.
2- Harmonização dos factos com a teoria. Estabelecer a concordância dos factos com a teoria
3- Articulação da teoria. Garantir o rigor, a precisão da teoria.

C. A partir da leitura do cap. 3, Kuhn afirma que nos períodos de ciência normal a prática científica está primariamente voltada para a resolução de quebra-cabeças. Qual osignificado deste afirmação?
1. Quando partimos para a resolução de algum jogo partimos com a convicção que tem uma solução.
2. Testam a engenhosidade dos cientistas.
a) Leis, conceitos e teorias.
b) Instrumentos e métodos de uso.
3. Qualquer quebra-cabeças obedece a regras.
4. Também a ciência quando parte para um problema encara-o como enigma que, à partida tem solução dentro das regras do paradigma.
5. Qualquer problema que não seja explicado pelo paradigma é suspenso até melhor oportunidade.

D. Capítulo 5 de A estrutura das revoluções científicas. As descobertas científicas não são apenas produtos de observações muito precisas. O que envolve a descoberta científica?

1. Anomalia: reconhecimento de que, de alguma forma, a natureza violou as expetativas paradigmáticas que governam a ciência normal.
2. Trabalho do paradigma no sentido da anomalia se converter no esperado.
3. Como exemplifica a nomeação de Priestley ao gás que pretensamente isolou: «óxido nitroso» e «ar desflogistizado»

E. Capítulo 6 de A estrutura das Revoluções Científicas. Explique por que o surgimento de uma nova teoria tipicamente só surge após um fracasso na atividade normal de resolução de problemas.
Ser admiravelmente bem-sucedida não significa ser totalmente bem-sucedida.
1. Fatores internos: Insegurança dos cientistas; fracasso do paradigma em resolver os seus próprios problemas.
2. Factores externos: Pressões socioculturais e religiosas.

F. Capítulo 7 de A estrutura das revoluções científicas. Explicar a diferença entre anomalias e a ideia de incomensurabilidade.

G. Capítulo 8 de A estrutura das revoluções científicas. Explicar por que razão "a escolha entre paradigmas competidores coloca frequentemente questões que não podem ser resolvidas pelos critérios da ciência normal".

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Paul Feyerabend





Filósofo austríaco, controverso, conhecido por sair pela janela depois das aulas e arrancar com a sua potente moto, escreveu obras importantes ao nível da epistemologia: Adeus à Razão, Contra o Método, Ciência numa Sociedade Livre, são obras marcantes e simultaneamente sintomáticas do seu projeto epistemológico. Contraindução, a ideia de progresso científico, a incomensurabilidade das teorias e a condição de coerência são os conceitos mais pertinentes.
Com recurso permanente à história da ciência, F. tenta provar a máxima de que as alterações científicas se deram por um processo anárquico. «Vale tudo» é a nova metodologia, provando que a história nas suas mais variadas vertentes, é multiforme e variada, estando repleta de acidentes e justaposição de eventos, tal como acontece no desenvolvimento considerado em sentido lato. Percorrendo a história civilizacional da Europa, e recorrendo a Mill, F considera que a civilização europeia alcançou certo patamar de desenvolvimento, não por encerrar uma qualquer excelência superior, mas por promover uma grande variedade de caminhos (Adeus à Razão, pág 45). Mesmo havendo aqui ou ali alguma intolerância e tentativa de imposição das ideias, raramente tal aconteceu. O anarquismo metodológico favorece a concretização do progresso em qualquer dos sentidos. Grande parte do mundo é desconhecida pelo que se deve estar aberto a alternativas. O que se deve exigir de um cientista? Polivalência e Versatilidade.
Existem inúmeras provas de que assim deve ser, ou pelo menos de que assim é. F. , ao contrário de Popper, não quer demonstrar que a ciência deva ser de tal forma, mas que os procedimentos são de certa forma. No desenvolvimento da criança a actividade lúdica inicial é um requisito básico para a compreensão. O adestramento torna a pessoa obediente mesmo perante algumas perplexidades. A uniformidade debilita o poder crítico.
Contraindução
O cientista terá, assim, uma única via: aceitar todas as outras. Numa crítica à ciência, F advoga a persecução de metodologias diferenciadas e pluralistas. Habitualmente o trabalho científico é conservador, mono dinâmico e visa essencialmente tornar forte o argumento fraco. Como? Optando por metodologias unívocas e impostas. Ora, este procedimento é contrário àquilo que F pretende porque pressupõe uma atitude ingénua face ao homem e à circunstância social.
O método tradicional empírico-indutivo baseia o progresso de uma teoria a partir do confronto com factos, indo ao encontro da noção que F introduz de Condição de Coerência (Contra o Método, pág 47 e ss).
Não existem factos brutos. Os factos científicos puros são reflexo de uma aceitação dogmática dos procedimentos metodológicos impostos e impedem o alcance da melhoria dos conhecimentos. Baseando-se mais uma vez em Mill (Adeus à Razão, 46 e ss), F. apresenta um conjunto de razões para a defesa da diversidade metodológica:
1.      Uma perspetiva rejeitada pode conter alguma verdade.
2.      Somos falíveis quando às nossas ideias.
3.      Uma verdade incontestada será considerada um preconceito.
4.      A sua adesão é meramente formal, a não ser que seja confrontada.
5.      Proibir o confronto com outras teorias significa contrariar a própria essência da ciência.

Não aceitar isto é não aceitar a ciência. Contudo, uma pequena ressalva. F. não abdica da necessária seriedade científica nem mesmo do seu método recorrente – o empírico indutivo. A sua crítica é estabelecida pela forma como este método é aplicado e pela maneira como se estabelece a demarcação entre ciência e não ciência. Em conformidade com isto, a objeção de F. aplica-se àquilo que as teorias consideram racional num dado momento. Recorrendo a Galileu, F afirma que as suas teorias foram consideradas irracionais relativamente ao status quo científico dominado pelo paradigma aristotélico. Sendo assim, parece mais vantajoso aceitar as teorias que à partida são consideradas irracionais a aceitar simplesmente os facto que podem ou não sustentar a teoria existente. Por este motivo, F afasta-se de Popper. Enquanto Popper afirma a necessidade de testes, F afirma a importância de aceitação das teorias diferentes e consideradas irracionais para a época.

A ideia de incomensurabilidade das teorias, a par de Kuhn, também é advogada por F. A ideia base é a constatação de que não existem factos brutos e que, por isso, a observação depende da teoria. Não existem observações puras. Assim como na mecânica clássica todos os objetos físicos têm forma, massa e volume, na teoria da relatividade o que existe são relações entre objetos de acordo com um certo ponto de referência. Como consequência, qualquer enunciado observacional que se refira a objetos físicos dentro da mecânica clássica terá um significado diferente para um enunciado observacional aparentemente similar na teoria da relatividade. Não existe um processo cumulativo, antes se assiste a uma rotura. Da mesma forma, a teoria ondulatória só ocorreu porque alguns decidiram não se deixar limitar por certas regras. Sem o mau uso da linguagem não pode haver progresso nem descoberta.  

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O conhecimento a priori e a posteriori. As proposições analíticas e sintéticos

O que é o conhecimento a priori?

Antes de mais convém refletir sobre as proposições sintéticas e analítica. Comummente, as primeiras correspondem a todas as proposições que aumentam o conhecimento. Por exemplo, quando afirmo que a água ferve a 100º estou a construir um conhecimento sintético porque 100º não está incluído na noção da fervura. Por isso, não é um conhecimento necessário e universal. Da mesma forma, a afirmação de que Ronaldo é mais pesado do que Messi tem carácter sintético assim como a proposição «a neve é branca» . A analiticidade das proposições é encontrada quando o predicado de um juízo está já contido no próprio sujeito, isto é, o predicado é «achado» pela simples análise do sujeito. Encontramos exemplos como «os homens calvos são homens» ou «um bom poeta é um poeta» que demonstram a analiticidade. Estes exemplos são triviais assim como é trivial a sua aplicação na argumentação. Como diz Russell, a não ser que queiramos construir algum sofisma, estas proposição nunca deviam ser enunciadas porque não acrescentam algo ao conhecimento.

É muito comum apresentarmos o conhecimento a priori como o que está antes da experiência, considerando a experiência como o contacto dos sentidos com a realidade exterior. Ora, a conotação que lhe vamos atribuir é kantiana. O seu significado corresponde ao que é independente da experiência e só pode ser alcançado pelo pensamento. É fácil ver que há ciências aprioristas. A matemática ou a lógica possuem estas características. Quando afirmo 2+2=4, recorri ao pensamento para alcançar o resultado. Contudo, os mais atentos interrogar-se-ão se realmente não há recurso à experiência na medida em que necessito de concretizar o cálculo. Como Russell mostra («Como o conhecimento a priori é possível » in Problemas da Filosofia), recorrendo a Kant, 7 e 5 devem ser colocados juntos para somar 12; a ideia de 12 não está contida em 7 e 5. Significa isto que a matemática pura é idêntica, no que aos seus métodos diz respeito, às ciência naturais? Ao contrário destas, em que é necessário um grande número de testes para confirmar uma teoria, na matemática basta sabermos uma vez que 2+2=4. Daí que a matemática não seja a posteriori mas a priori.

A posteriori significa o que é oriundo da experiência. Quando afirmo que a água é H2O ou que limão é ácido, tenho de recorrer à experiência.

Finalmente, qual a diferença entre sintético e analítico e «a priori» e «a posteriori»? A primeira é uma distinção semântica acerca de tipos de frases, a segunda é uma distinção epistemológica acerca de tipos de modos de conhecer  (http://criticanarede.com/docs/etlf_analitico.pdf).              

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O problema do Livre Arbítrio


 Determinismo:

Tudo o que fazemos é causado por forças que não controlamos.
Se as nossas forças são causadas por forças que não controlamos, então não agimos livremente.
Logo, nunca agimos livremente.
Dizer que um sistema é determinista é afirmar que tudo o que nele acontece resulta de causas anteriores, e que, logo que as causas ocorram, os efeitos têm de se seguir inevitavelmente, dadas as circunstâncias circundantes a as leis da natureza[1]. Então, sempre que encontremos a mesma causa, encontraremos o mesmo efeito. Isto é, sempre que as mesmas circunstâncias ocorrerem, serão produzidos os mesmos efeitos, tornando previsíveis os acontecimentos. O determinismo não constata simplesmente a presença de causas, afirma que essas causas, sempre que ocorram nas mesmas circunstâncias, produzirão os mesmos efeitos. Daí que se negue a presença de deliberação livre da vontade no que respeita ao ser humano.

Exemplos:
- O ciclo da água;
- Os sismos;
- Os vulcões;
Se ocorrerem determinadas circunstâncias, então os efeitos decorrem inevitavelmente de certas causas. Sempre que um anticiclone estaciona nos Açores o tempo em Portugal é influenciado. O efeito desse anticiclone é sempre idêntico.

Há dias em que temos saudades do anticiclone dos Açores.
E o ser humano? É possível vislumbrar-lhe características determinísticas?

Os acontecimentos neurológicos.
Os estados conscientes são causados por acontecimentos neurológicos. Realizam-se por vezes cirurgias cerebrais apenas com anestesia local, o que permite ao paciente estar consciente e descrever o que lhe vai acontecendo à medida que se vai fazendo estimulação das partes do cérebro.
Assim, descobriu-se que, estimulando várias regiões do cérebro, conseguia-se causar todos os tipos de movimentos corporais, franzir as sobrancelhas, fechar o olho, etc… Até aqui compreende-se que tal possa ser possível. Mas o mais curioso foi constatar que os animais que tinham sido sujeitos a estas estimulações, não ficaram surpreendidos com os movimentos, não revelando qualquer medo.
Do mesmo modo, estimulando um cérebro humano e sem que o paciente soubesse, foi produzido um movimento da cabeça e do tronco bem orientado e aparentemente normal. Repetiu-se várias vezes esta estimulação o que revelou uma coisa ainda mais curiosa: o paciente conseguia explicar os movimentos, dizendo que andava à procura dos chinelos ou que tinha ouvido barulho. Um mero reflexo causado por factores externos ao cérebro promoveu uma consciência.
Estamos perante exemplos muito fortes de defesa do determinismo e a consequente negação do livre arbítrio.

A Sociedade e a cultura
No princípio do século vinte, com a crescente importância de um novo ramo do conhecimento – Psicologia - assistiu-se à promoção de teorias que professavam a influência fundamental do meio para o desenvolvimento do indivíduo. O Behaviorismo[2] culminou com teses que sustentavam que a educação determinava o desenvolvimento. Seria possível, ao produzir ambientes favoráveis, direccionarmos o desenvolvimento da criança para aquilo que desejaríamos. Neste sentido, o determinismo social mostrava que há uma relação causa-efeito entre a circunstância onde se vive e aquilo que se é. Eu sou a minha circunstância.
Há factos que sustentam esta tese. Estatisticamente, as pessoas oriundas de meios economicamente desfavorecidos têm mais probabilidade de ter insucesso escolar. Outro exemplo pode ser encontrado no aumento considerável de suicídios junto de jovens quando os meios de comunicação dão notícia deste tipo de ocorrências.

Factores genéticos.
Também os factores genéticos parecem ter um peso significativo nas decisões, escolhas e apetências. Certos estudos mostram a grande proximidade comportamental entre gémeos monozigóticos educados em ambientes diferenciados. É conhecido o caso dos gémeos Jack Yufe e Oskar Stohr. Um deles foi criado em Trindade pelo seu pai; o outro pela sua avó na Alemanha. Apesar disso, quando voltaram a encontrar-se, ambos usavam óculos com armações rectangulares e camisa com dois bolsos e dragonas. Ambos tinham um pequeno bigode. Ambos gostavam de ler revistas de trás para a frente, além de outras semelhanças desconcertantes.

O argumento determinista é, então, o seguinte:
Se as nossas acções são causadas por forças que não controlamos (no sentido de não depender de nós que algo aconteça, mas sim das circunstâncias que inevitavelmente produzirão certos efeitos), não agimos livremente.
Tudo o que fazemos é causado por forças que não controlamos.
Então não agimos livremente.

Logo, nunca agimos livremente.




[1] James Rachel, Problemas da Filosofia, Gradiva.

A Democracia Deliberativa- Jürgen Habermas

DEMOCRACIA DELIBERATIVA Jürgen Habermas   O que é a política: «é o meio pelo qual os cidadãos se tornam simultaneamente conscientes ...