quinta-feira, 26 de março de 2026

A Democracia Deliberativa- Jürgen Habermas

DEMOCRACIA DELIBERATIVA

Jürgen Habermas

 

O que é a política: «é o meio pelo qual os cidadãos se tornam simultaneamente conscientes da sua dependência mútua e do estabelecimento de relações recíprocas, não se orientando apenas para a competência mas para o diálogo e o entendimento»[i]

1- Falência do modelo democrático tradicional.

- Agregação de preferências e negociação de interesses individuais.

- A base deste acordo está no símile do mercado em que o debate faz confluir na avaliação entre as partes a congruência de interesses privados.

2- Características da democracia deliberativa

-Pressupostos

A) a justificação das propostas apresentadas; 

B) estas razões devem ser acessíveis a todos os cidadãos interessados (que possa ser entendível pelos cidadãos); 

C) é um processo dinâmico (o sua justificação não é eterna); 

D) visa tomar uma decisão que seja vinculativa num certo período de tempo.

-Objectivos:

A) Visa a melhoria da qualidade das decisões colectivas.

B) Almeja o escopo de uma cidadania participativa.

C) Projecta-se na busca colectiva da melhor proposta para todos.

3- Virtualidades do modelo deliberativo:

- Reforça as orientações das deliberações para o interesse geral em detrimento dos interesses privados.

- Possibilita o desenvolvimento cognitivo e práxico.

4- Qual a fundamentação da racionalidade argumentativa?

- Os modelos dos actos de fala (dizer é fazer) de Austin e Searle.

AUSTIN: Todos os actos de fala são performativos: São enunciados que, quando ditos, tornam-se acção. Portanto todos os actos são performativos, para isso basta antecedê-los de verbos como declarar, afirmar, dizer. [eu afirmo] que a Terra é redonda, [eu declaro] que a sessão está aberta.

SEARLE: falar uma língua é adoptar uma forma de comportamento regido por regras[ii]. Por esse motivo, os actos ilocutórios (realiza-se a acção dizendo algo) resumem-se a: A) dizer a realidade (assertivos); B) tentar levar os interlocutores a fazer algo (directivos); C) comprometermo-nos nós próprios com a realização de uma acção (compromissivos); D) expressamos os nossos sentimentos e atitudes face ao mundo (expressivos), E) provoca alterações no mundo por meio dos nossos enunciados (declarativos).

Conclusão: O conceito de agir comunicativo desenvolve a intuição de que a linguagem é inerente ao telos do entendimento. Ora, este entendimento ultrapassa o âmbito puramente gramatical, ele alcança a cognição, colocando o falante em diálogo e em acordo com os outros.

Com a linguagem, o indivíduo ultrapassa a sua lógica egocêntrica e desenvolve a participação social.

5) A novidade de Habermas

A procura dos fundamentos do saber exige uma busca ao ponto estrutural da linguagem: a cognição. Este fundo «puro» estabelece uma epochê dos epifenómenos linguísticos. Esta cognição permite fundar uma racionalidade que permita a comunicação e, consequentemente, a democracia.

5.1) Os três mundos

- Os indivíduos em situação de fala situam-se em três mundos:

O mundo objectivo – Verdade: refere-se a enunciados verdadeiros.

O mundo subjectivo – Veracidade: refere-se às vivências do falante.

O mundo social – rectidão: refere-se ao contexto dos actos de fala.

A razão comunicativa exprime uma racionalidade teórica que se abre à prática, culminando numa concepção de verdade como consenso. […] Trata-se de uma racionalidade […] que é céptica e intersubjectiva…[iii]

5.2) O Mundo da Vida e o Sistema

Mundo da vida

Sistema

Razão prática

Compreensão

Sentido

Consenso interno

Razão instrumental

Juridicização

Consequências desejadas

Imposição externa (controlo)


6- Ética do discurso

Dois princípios

 

Princípio da Universalidade

 

 

Princípio Discursivo

 

«Uma norma só é válida quando todos os afectados por ela possam aceitar livremente as consequências e efeitos secundários que se seguiriam, previsivelmente, do seu cumprimento geral para a satisfação dos interesses de cada um»

 

 

«Só podem pretender a validez as normas que concitarem a aceitação por parte de todos os afectados, como participantes num discurso prático»

7- As três dimensões da política

- Pragmática: Refere-se à necessidade de encontrar os meios mais adequados para alcançar determinados fins (eficácia).

- Ética: refere-se à ideia de bem e correspondente vida boa (adequação das medidas com o bem comum).

- Moral: refere-se à equidade na regulação das relações entre as pessoas e na tomada de decisões (inquirição acerca da imparcialidade das diferentes propostas políticas).



[i] Acílio E. Rocha, «Democracia Deliberativa» in Filosofia Política, Almedina, 2008, pág.155.

[ii] John Searle, Actos de Fala, Livraria Almedina, 1981, pág. 33.

[iii] Acílio E. Rocha, op cit, pág.148A Persistência.


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