A Felicidade e o Tempo
Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.
Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.
Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, Os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, Os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta…
Estes versos da música enfatizam a ideia fundamental da Felicidade, a saber, a vida como organismo, a vivência cósmica, a presença no sentido unívoco do mundo. Apesar de não ter sustentação empírica, atrevo-me a afirmar que uma percentagem considerável de pessoas identificariam a infância, nomeadamente a partir da consciência do mundo, como a fase mais feliz das suas vidas. «Parecem bandos de pardais à solta» enfatiza a dinâmica imanente do mundo. O mundo não é transcendência que se pretende, nem se que se sonhe. É o mundo que me faz pensar que sou parte dele num equilíbrio que por si só explica. Nessa presença, o tempo confunde-se, imiscui-se na vida e no espaço. Sujeita a totalidade à sua realidade. A realidade é tempo e espaço, onde não se distinguem estas duas realidades. É nesta imanência que se materializa a felicidade. Não estamos sós perante o mundo porque há sempre o «colo do pai».
Por que razão não é sempre assim? Talvez aí se encontre a ideia pela qual não somos felizes, apesar de termos momentos felizes. A minha tese é que a felicidade alcança-se quando menos pensamos nela e quando corresponde a um balanço e equilíbrio com o mundo. Não me preocupo em encontrar razões para explicar a ligação umbilical entre a Felicidade e a Ética, nem mostrar um relativismo. Interessa-me mais o âmago essencial do conceito.
A consciência levou-nos a uma afirmação do transcendente. A saída do solipsismo cartesiano enfatizou a existência de uma realidade fora de nós pela qual o nosso brilhantismo metafísico daria razão da sua existência. Ficámos sós perante o mundo. Por este motivo, é muito difícil continuar a ser feliz desde o momento em que saímos do mundo. A vida torna-se uma procura pela sua compreensão, desligando-se da sua imanência existência.
Na tentativa de recuperar a sua posição no mundo, o ser humano buscou compreender a sua natureza, desligando-se gradualmente do tempo e espaço cósmico. O tempo e o espaço começaram a ser construídos à sua imagem e semelhança. Daqui resultaram diferentes conceções temporais. Contemporaneamente, o tempo é fugaz, as horas e os minutos, estruturados por uma consciência de homo faber ou economicus, profetizam um ideal de felicidade proporcional. A isto Lipovetsky chama de felicidade light (Lipovetsky 1990). Daí até à manipulação prazerosa foi um passo. A nossa saída do cosmos trouxe um desejo permanente que, não sendo alcançado, motivou a nossa perceção como seres inerentemente biológicos e cansados, cansados da procura e dominados pelo prazer do scroll, um prazer imunitário com dialética da positividade e pelo seu excesso (Byung-Chul Ham, 2010) e da serotonina artificial. O desejo pelo sentido é determinado pelo sentido do desejo que é fugaz e momentâneo. Tornamo-nos ansiosos. Desejamos algo que não podemos conseguir. Tempo houve em que os filósofos receitaram a ataraxia como disposição comportamental. Atualmente, existe o Atarax 25mg, produzido pela UCB Pharma.
Contudo, convém fazer uma ressalva. Não estamos a confundir Felicidade com alegria. Uma pessoa sempre alegre torna-se insuportável. Uma pessoa feliz é suportável ou, até, desejável. Além disso, a alegria é mensurável, quantificável e marcadamente física, a felicidade é qualitativa e intimamente pessoal, apesar de poder ser partilhada.
Os filósofos primeiros esboçaram os principais mecanismos de promoção da Felicidade. Apesar de ser um tema que só atualmente se tornou um motivo de procura desenfreada, já havia sido esboçados os contornos para o usufruto de uma vida. Aristóteles designou a felicidade de eudaimonia. Este conceito distingue-se da origem latina do termo que enfatiza a fertilidade, a ação de dar fruto. A partir dessa etimologia, parte-se sempre da premissa que a felicidade é alcançável pelo «felix», pelo que é fecundo. Parece, pois, pressupor que a felicidade materializa-se na obra que se produz. Não deixa de ser perspicaz existencialmente falando que a felicidade corresponda a uma concretização de um objetivo. Encontrar-se-ia mais facilmente a saída para um projeto pessoal. Contudo, esse projeto, creio, enfoca a vertente alegre e não feliz. A tese que sustento é a de que a felicidade é um estado de harmonia que resulta de um ato reflexivo sobre a soma de momentos alegres ou tristes. Mas será a ação sobre a matéria a única forma de alcançar a felicidade? Parece razoável pensar-se desse modo. Um escritor fica feliz pela concretização do seu pensamento num objeto com impressões de caracteres. Um filósofo alcança a catarse no momento em que transfere para a verve ou para o papel o seu processo lógico e metafísico. O cientista alcança a sua realização no momento da descoberta, o desportista na concretização da sua meta, seja qual for o seu desporto. O arquiteto alcança o nirvana quando vê, sente, experimenta corporalmente o que projetou por meio de retas, ângulos e geometria. Talvez seja mesmo uma condição necessária, porém não me parece que seja suficiente. O problema está no facto de essa realização se situar num tempo preciso. O sentimento positivo da realização e concretização de um projeto esfuma-se no momento imediato à sua realização. Mas há outro problema. Esse desígnio alcançado rapidamente se transforma em angústia pelo simples facto de exigir ao agente que se lance novamente no encalço de outro objetivo. Ora, a angústia não é felicidade. A angústia é a busca ansiosa pela felicidade. Quem procura a felicidade não é feliz nem sabe o que é.
Na origem grega é o estado interior, o equilíbrio, o bem-estar, o meio termo, a sensatez, a harmonia do eu com o todo. Esta ideia estava em diálogo com o conceito de causa final aristotélica, como ato de uma potência. Como todos os objetos tendem para o seu lugar natural, também a consciência feliz será aquela que promoverá o seu lugar na harmonia do mundo. Mais uma vez, a felicidade encontra-se vinculada ao tempo, não se sobrepondo nem se subdimensionando. Creio que a ideia central é o equilíbrio homeostático entre a consciência e o mundo. Não é o nirvana, aquele estado de elevação face ao sofrimento, mas a sensatez e a perspicácia de encontrar em todos os momentos aquilo que possa contribuir para a construção de um caminho. Claro está que as religiões têm uma longa vida porque proporcionam uma vida eterna. Mas, objetivamente não possuo evidência dessa possibilidade, pelo que é preferível pensar uma felicidade mais existencial.
A tendência gregária da pessoa proporciona uma dinâmica de relações, de cooperações. Na génese do bem e do mal ( Hanno Sauer 2023, p. 23), a cooperação, entendida como maximização do proveito coletivo com óbvias vantagens para todos, ocupou um lugar de relevo. O tempo aqui é um instante perene, não é nostalgia num paraíso perdido. Também não é uma projeção para um futuro incógnito, é um aproveitamento máximo daquilo que o instante pode proporcionar, as relações positivas com os outros.
A criança possui a espontaneidade da ação. Esta esgota-se no momento e não enferma de preconceitos nem de passados que possam ostracizar. Portanto, a ação feliz abarca um momento de usufruto coletivo estabelecida numa cooperação. A harmonia com o mundo é uma causa e uma consequência da felicidade e essa harmonia exige que o tempo não se afirme.