terça-feira, 4 de outubro de 2011

República II


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O Positivismo de Littré


<   Ø Não deu como garantida a exclusividade da sociologia na explicação do fenómeno social. A Biologia, a par da antropologia darwinista, da Economia, da linguística e da História, trouxe uma urgente redefinição epistemológica. Littré tenta adequar estas novas temáticas à taxonomia positivista. Acrescente-se a influência de Mill que resfreou a impetuosidade do estatismo comteano com a afrimação do indivíduo, à boa maneira inglesa.
<   Ø Atento à afirmação de classes intermédias, Littré procurou retirar à burguesia abastada a hegemonia que Comte lhe havia dado. Assim criou vias para a afirmação do republicanismo burguês contra o monarquismo, o clericalismo e o revolucionarismo socialista.
    Ø  Inspirando-se na máxima Ordem e Progresso, Littré tentou justificar um republicanismo moderado, cujo desenlace se deu a III república francesa em 1870<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]-->, adequando o positivismo às necessidades da luta contra o monarquismo, o clericalismo e o socialismo revolucionário.

A importância do positivismo na consolidação do republicanismo


<   O positivismo, apesar da enorme importância que teve em Portugal, não fomentou qualquer unanimidade. De facto, houve pensadores que rejeitaram a ideia de se impor um positivismo em Portugal. Antero de Quental foi um deles. Apelidando o positivismo de jacobinismo demagógico, Antero considerava a aceitabilidade das teorias positivistas por parte de certa intelectualidade portuguesa como uma demonstração do simplismo como as teses de Comte estavam organizadas. Também Sampaio Bruno comungava desta ideia, acrescentando que esta simplicidade ia ao encontro da preguiça mental portuguesa.
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    Os positivistas tinham uma idêntica opinião no plano contrário, pois consideravam que o Positivismo requeria para a sua compreensão uma educação científica, o que o tornava inacessível para os intelectuais oriundos dos meios teológicos e metafísicos.
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     O partido Republicano (1873-1876)
Com uma base essencialmente pequeno-burguesa e, por isso, urbana, surgiu nos finais do século XIX o Partido Republicano. A cada vez mais precária situação do proletariado e a crise interna proveniente da transmutação do nosso capitalismo, promoveu a ascensão da pequena burguesia, constituída essencialmente por intelectuais oriundos de classes profissionais ligadas ao jornalismo à docência universitária e ao pequeno comércio.
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      1. Cultivo das ciências exactas nas escolas politécnicas e médicas e respectivo ataque ao espírito teológico.
<    A ideia configurada pela argumentação positivista da inevitabilidade da positividade. A teoria antecipa a sua veracidade.
     2. Despertar político e ânsia de poder das classes médias sobretudo da pequena burguesia face à fraqueza social do proletariado e à crise interna resultante da crise do nosso capitalismo industrialista.
Com a guerra da Patuleia[2], o liberalismo mais progressista sai derrotado, promovendo-se um poder exercido pela lata burguesia bancária e comercial e pelos grandes senhores agrários. Por conseguinte, o desenvolvimento não passou por uma dinâmica industrial. Conjugou-se simplesmente as vontades destas classes. Por este motivo, não é descabido falarmos numa defesa das classes intermédias por parte do republicanismo através da defesa de um mercado liberal, concordante com o darwinismo.


[1] Depois da deposição de Napoleão III e da derrota francesa na guerra franco-prussiana. Durou até 1940.
[2] Guerra civil após a revolução de Maria da Fonte. Durou oito meses opondo os cartista com o apoio da rainha D. Maria II a uma coligação entre setembristas e miguelistas.


República I


Pressupostos filosóficos do republicanismo[1]


O enquadramento social do positivismo


Perante os seguintes acontecimentos:
v  Contradições geradas no seio da sociedade oitocentista pós-revolucionária.
v  Estas contradições mostraram que a realidade social era mutável, análoga à fenomenalidade natural e, portanto, passível de ser experimentada.
v  Permanente mudança nas relações de produção capitalista.
Fomentou-se a ideia de que as concepções filosóficas e religiosas das sociedades pré-industriais, não conseguiam responder aos novos tempos.
- A cidade grega encontrou o seu fundamento numa metafísica do inteligível.
- A Idade Média hierarquizou-se socialmente segundo uma concepção teocêntrica.
- A Idade Moderna atomizou o indivíduo, separando-o de Deus e dos outros homens.
- A sociedade industrial, desdivinizada, procurou explicar a realidade social através de critérios positivistas, de modo a controlar racionalmente o destino individual e social.

Comte inscreve-se nesta vertente conservadora. O seu propósito será o de interpretar a sociedade e, com isso, consolidar o progresso e evitar a revolução
Ø  Para Comte, depois dos desenvolvimentos protagonizados pela Física, Biologia e Química, seria possível ao ser humano debruçar-se sobre questões mais complexas do Ser: os fenómenos sociais.
Ø  Estes fenómenos eram considerados complexos máximos e mínimos generalistas, segundo a diferenciação ontológica de Comte (para Comte, a realidade hierarquizava-se de acordo com os conceitos de generalidade e complexidade. Os menos complexos e os mais gerais pertenceriam à Matemática e os mais complexos e menos gerais pertencem à Sociologia).
Ø  A esta hierarquia ontológica correspondia uma hierarquia histórica e epistemológica. A “evolução do espírito caminhava para a plena positividade através da crescente cientificação das esferas do ser numa ordem histórica que ia das ciências mais gerais e menos complexas para as últimas ciências - a Sociologia.”[2]
Ø  Esta ciência apelidava-se de Física Social.
Ø  Estava assim encontrada a legitimação doutrinária da classe social dominante. O capitalismo que pugnava era um capitalismo pós-concorrencial. Aqui, o estado funcionaria como vigilante e interventor sobre as propriedades que não desempenhassem uma função social produtiva.
Ø  Por isso desenvolve a noção de Estática Social. Contrariamente à ideia metafísica de progresso a partir do conflito, Comte desenvolve a ideia de progresso através da ordem (daí a bandeira brasileira). Este conceito promoveu a ideia de Comte quanto às estruturas que melhor determinam a ordem : Estado, Família Monogâmica e Patriarcal e a Propriedade Privada.
Ø  O PODER: O exercício do poder devia ser legitimado pela capacidade científica e industrial, devendo o poder espiritual pertencer aos portadores do saber: Os filósofos positivistas.
Ø  Este poder seria exercido de um modo centralizado e o respectivo Estado devia ser intervencionista e ditatorial. O indivíduo seria uma expressão abstracta, na medida em que o social predominava. No estatuto social só a família, inicialmente, e o Estado, depois, possuíam dignidade.
Ø  Estava assim encontrada uma forma de justificar a legitimidade do poder da grande burguesia e de evitar as querelas entre facções e a consequente revolução.

O Positivismo de Littré


Ø  Não deu como garantida a exclusividade da sociologia na explicação do fenómeno social. A Biologia, a par da antropologia darwinista, da Economia, da linguística e da História, trouxe uma urgente redefinição epistemológica. Littré tenta adequar estas novas temáticas à taxonomia positivista. Acrescente-se a influência de Mill que resfreou a impetuosidade do estatismo comteano com a afrimação do indivíduo, à boa maneira inglesa.
Ø  Atento à afirmação de classes intermédias, Littré procurou retirar à burguesia abastada a hegemonia que Comte lhe havia dado. Assim criou vias para a afirmação do republicanismo burguês contra o monarquismo, o clericalismo e o revolucionarismo socialista.
Ø  Inspirando-se na máxima Ordem e Progresso, Littré tentou justificar um republicanismo moderado, cujo desenlace se deu a III república francesa em 1870[3], adequando o positivismo às necessidades da luta contra o monarquismo, o clericalismo e o socialismo revolucionário.


[1]Ver Fernando Catroga, «A importância do Positivismo na consolidação da ideologia republicana em Portugal, in Biblos, 53, 1977 e «inícios do positivismo em Portugal» in Revista História das Ideias, vol.1.
[2] Fernando Catroga, , pág. «A importância do Positivismo na consolidação da ideologia republicana em Portugal, in Biblos, 53, 1977, pág. 12
[3] Depois da deposição de Napoleão III e da derrota francesa na guerra franco-prussiana. Durou até 1940.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011



    A filosofia como actividade exige de nós uma postura de abertura face àquilo que nos é apresentado. Por esse motivo, ao aprendiz de filósofo incumbe-lhe descortinar caminhos. Para tal, é necessário ser corajoso. Sim, corajoso.

    Na medida em que a curiosidade é-nos conatural, todos nós possuímos uma aptidão para questionarmos a realidade, seja ela qual for. Por que razão não o fazemos? Essencialmente por receio. Deste modo, é importante que os estudantes de filosofia comecem a pensar de modo mais assertivo. Depois de ultrapassar esta primeira fase, descobre-se respostas, emergem novas questões. É um exercício tipo quebra cabeças. O mais difícil é começar, depois nada nos demove no prazer da autodescoberta.

    Face a um desenho animado como Os Três Porquinhos, é evidente a necessidade de interrogar as várias cenas com que somos presenteados: o que representa o Lobo? Qual a relação entre as características de cada casa e as personalidades dos porquinhos? O que representam as casas?

    Estamos entrar no jogo:
O Lobo é mau? Ou o Lobo está em nós? Não será o lobo a expressão dos nossos medos?
Por que razão os porquinhos têm diferentes protagonismos? haverá alguma conexão entre o prazer, o divertimento e a realidade; entre o princípio do prazer, do imediato e o princípio da realidade? Esta realidade é-nos imposta ou corresponde ao modo como cada um de nós a encara?

Introdução à Lógica



Durante o 10º ano fizemos um percurso que nos demonstrou que a filosofia, além do seu conteúdo crítico e atento ao mundo, também deve ser consequente. Neste sentido, a lógica, enquanto ciência que se debruça sobre os princípios fundamentais do pensamento, procura os argumentos válidos. Como a filosofia é uma actividade essencialmente argumentativa, então o estudo dos argumentos válidos reveste-se de primordial importância.
O que é um argumento válido? O que é um argumento?
No nosso quotidiano utilizamos muitas vezes a expressão «isso não tem lógica» para designar algum pensamento que, à partida, entra em litígio com aquilo que consideramos correto em termos de pensamento: não posso afirmar e simultaneamente negar esse algo. Portanto, estamos atentos ao modo como os nossos interlocutores executam a nobre tarefa de raciocinar, utilizando um conjunto de frases que se interligam no sentido de atingir uma conclusão:

Um sistema político é importante para a sobrevivência da humanidade. A democracia é um sistema político. logo, é importante para a sobrevivência da humanidade.

Este argumento possui um conjunto de frases que são anteriores à conclusão «logo, é importante para a sobrevivência da humanidade». Essas frases designam-se de premissas: «Um sistema político é importante para a sobrevivência da humanidade» e «A democracia é um sistema político».

Exercícios:
Identifique as premissas e as conclusões dos seguintes argumentos:
1. A água é H2O e o mar é constituído por água. Logo o mar é H2O.
2. A natureza é bela porque alguém a criou e a beleza é um acto de criação.
3. A pena de morte é ilegítima, pois não se deve causar a morte a um ser humano em circunstância alguma.

domingo, 7 de agosto de 2011

Eça e o Riso

« Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu. E entristeceu - por causa da sua imensa civilização. O único homem sobre a Terra que ainda solta a feliz risada primitiva é o negro, na África. Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a económica, a social, a literária, a artística que matou o nosso riso, como o desejo de reinar e os trabalhos sangrentos em que se envolveu para o satisfazer mataram o sono de Lady MacBeth. Tanto complicámos a nossa existência social, que a Acção, no meio dela, pelo esforço prodigioso que reclama, se tornou uma dor grande: - e tanto complicámos a nossa vida moral, para a fazer mais consciente, que o pensamento, no meio dela, pela confusão em que se debate, se tornou uma dor maior. O homem de acção e de pensamento, hoje, está implacavelmente votado à melancolia.
Este pobre homem de acção, que todas as manhãs, ao acordar, sente dentro em si acordar também o amargo cuidado do pão a adquirir, da situação social a manter, da concorrência a repelir, da «íngreme escada a trepar», poderá porventura afrontar o Sol com singela alegria? Não. Entre ele e o Sol está o negro cuidado, que lhe estende uma sombra na face, lhe mata nela, como a sombra sempre faz às flores, a flor de todo o riso. Por outro lado o homem de pensamento que constantemente, pelo fatalismo da educação científica e crítica, busca as realidades através das aparências, e que no céu só vê uma complicada combinação de gases, e que na alma só descobre uma grosseira função de órgãos, e que sabe que porção de fosfato de cal entra em toda a lágrima, e que diante de dois olhos resplandecentes de amor pensa nos dois buracos da caveira que estão por trás, e que a todo o sacrifício heróico penetra logo o motivo egoísta, e que caminha sempre à procura da lei estável e eterna, e que a cada passo perde um sonho, e que por fim não sabe para onde vai, e nem mesmo sabe quem é - não pode ser senão um triste! 
Desde que homem de acção e homem de pensamento são paralelamente tristes - o mundo, que é sua obra, só pode mostrar tristeza. Tristeza na sua literatura, tristeza na sua sociedade, tristeza nas suas festas, tristeza nos fatos negros de que se veste... Tristeza dentro de si, tristeza fora de si. E quando por acaso alguém por profissão tradicional, como os palhaços, ou por contraste, ou pela saudade da antiga alegria e o desejo de a ressuscitar, procura fazer rir este mundo - só lhe consegue arrancar a tal casquinada curta, áspera, rangente, quase dolorosa, que parece resultar de cócegas feitas nos pés de um doente. 
Não há que duvidar! Voltaram os tempo de Albert Durer! Outra vez o famoso moço de asas potentes, no meio dos inumeráveis instrumentos das ciências e das artes, que atulham o seu laboratório, e diante das obras colossais, que com eles construiu, sente, sob esta produção excessiva que o não tornou nem melhor nem mais feliz, um imenso desalento, e, considerando a inutilidade de tudo, de novo deixa pender sobre as mãos a testa coroada de louro. 
Pobre moço, que, de muito trabalhar sobre o universo e sobre ti próprio, perdeste a simplicidade e com ela o riso, queres um humilde conselho? Abandona o teu laboratório, reentra na Natureza, não te compliques com tantas máquinas, não te subtilizes em tantas análises, vive uma boa vida de pai próvido que amanha a terra, e reconquistarás, com a saúde e com a liberdade, o dom augusto de rir. 
Mas como pode escutar estes conselhos de sapiência um desgraçado que tem, nos poucos anos que ainda restam de século, de descobrir o problema da comunicação interastral, e de assentar sobre bases seguras todas as ciências psíquicas? 
O infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio - o Grande Civilizado. »
Eça de Queiroz, «A Decadência do Riso», Gazeta de Notícias (1891)'  do Riso», in Gazeta de Notícias (1891)' 

sábado, 16 de julho de 2011

Depois do romantismo: A questão do «Bom Senso e do Bom Gosto» - Questão Coimbrã


A questão do «Bom Senso e do Bom Gosto» - Questão Coimbrã


- Caracterizou-se por uma guerra de folhetos e folhetins entre Antero e António Feliciano de Castilho e António Pinheiro Chagas. Com um fundo predominantemente ideológico, esta questão promoveu ventos de mudança estéticos. Possivelmente influenciado pelo palavroso romantismo piegas, o realismo começa por caracterizar-se por uma defesa pela linguagem simples. Se o realismo está presente em Eça, já Antero envereda por um transcendentalismo. É aliás este aspecto de Antero que os ultra-românticos acusam.

Os argumentos ideológicos

Os grandes aspectos da intervenção intelectual de Coimbra ficaram-se mais a dever a factores ideológicos e políticos do que por factores estéticos, a saber:
*      O problema da comunicação
*      A questão dos modelos doutrinários
*      As necessidades morais e intelectuais do público a que não é alheia o ruralismo e o analfabetismo imperante.
*      O estatuto do intelectual, dependente do poder e da pouco numerosa burguesia letrada.
*      A sua independência face ao público
*      A escolha das prioridades intelectuais
*      A reforma da universidade
*      Fundamento do espírito crítico
*      Reforma mental contra a burocratização do intelectual

Significado da Geração de 70


- Projecto de síntese e de mudança nacional e europeu;
- Discussão despreconceituosa, racional;
- Abertura a novas experiências estéticas;
- Regeneração total do país (económica, cultural e política); «reaportuguesamento»

Causas formais:

Geração de Coimbra contra o:
·         Romantismo Piegas;
·         Classicismo Retórico (verdade, Belo, Bem) – (filosofia da Regeneração);
·         Descrença na possibilidade de se alcançarem as reformas sociais e políticas através das vias institucionais;
·         Constatação da crescente institucionalização e burocratização do artista através da atribuição de cargos públicos[1];

Causas materiais:

·         Revolução abortada das patuleias (1846-1847). Guerra civil ganha pela facção de D. Maria II (cartistas). Os cartistas tornam-se posteriormente no Partido Regenerador, tendo-se afirmado como um partido conservador que defendia a monarquia constitucional.
·         O pré-industrialismo das políticas de Fontes Pereira de Melo – da política do transporte - e as reacções de D. Pedro V a este estado de pragmatismo burguês e o consequente parasitismo económico.
·         A falência cultural portuguesa: a sociedade portuguesa caracterizava-se por uma imitação grotesca da cultura europeia. O tédio tornou-se um sentimento generalizado da sociedade portuguesa e invadia o espírito de tudo e de todos.

Causas intelectuais:


Face a este quadro, a descrença na transformação do país levou muitos intelectuais a vincularem-se a correntes do pensamento que se difundiam por toda a Europa.
·         - Numa primeira fase, simpatia com o socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier, Proudhom.

·     - Defesa de um ponto de vista evolutivo contra a degenerescência romântica de António Feliciano Castilho.
·         - Difusão das primeiras ideia republicanas (fundação do jornal A República em 1948).
·        - Numa segunda fase, idealização de uma aristocracia iluminada, contraponto a um socialismo utópico. Coincide com a fase da ironia queirosiana. Este período corresponde à máxima «vencidos da vida».

Como se caracteriza?

·        - Idealismo céptico. Cepticismo fin-de-siècle do pós-romantismo europeu; idealistas por que convictos do poder absoluto das ideias face ao mundo.
·        - Sentido revolucionário do tempo: acto de esquecimento do passado e promoção da ideia de fim da história.
·         - Movimento niilista: esquece a própria memória, negação do Estado como memória da nação, negação da igreja como negação da alma, o partido como memória de classe.
·        -  Renovação nos métodos da interpretação histórico – literária;
·        -  Germanização coimbrã como resposta à constatação de carências educativas;
·         Instauração de um espírito crítico;
·      - Para Antero a tragédia (futuro) é a marca, o trágico (passado) predomina em Oliveira Martins e o cómico (presente) em Eça.[2]

O que pretendiam?

·         Reforma mental;
·      - Corresponder às necessidades morais e intelectuais do público (revolução vintista);
·       - Acertar o passo com a Europa, no sentido civilizacional;
·        - Novos modelos doutrinários;
·        -  Independência intelectual;
·         - Reformas das Universidades.
·     - Repensar e pôr em questão toda a cultura portuguesa desde as suas origens, fixando-se no ponto mais elevado e também mais complexo da história de Portugal, isto é, o período das descobertas.
·   - Promover activamente uma transformação profunda na ideóloga política e na estrutura social portuguesas, preparando a revolução republicana de 1910.


[1] Ideias retiradas de Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70, Círculo de Leitores, 1987.

[2] Ideias retiradas de Álvaro Machado, A Geração de 70 – Uma Revolução Cultural e Literária, Biblioteca Breve, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1986.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Expressão Filosófica das Viagens da Minha Terra - Parte III



Almeida Garrett
- Encontro de três tendências: Reacção ao Iluminismo francês do século XVIII e respectivo ideal de progresso e cosmopolitismo; nacionalismo estrito de raiz liberal, Cultura Clássica.
- Reacção ao processo de Regeneração.
                - Regeneração: Protagonizado por Saldanha, o grito no teatro de São João, Porto, pretendia retomar a pureza de um liberalismo que ainda não cumpria os seus fins. No centro socioeconómico deste movimento regenerativo está Fontes Pereira de Melo (1819 -1887).
 


Garrett enceta uma reacção cultural contra a idolatria do progresso. O Relato na primeira pessoa mostra o recurso romântico da expressão do individualismo como um modo intimista subjectivo. Vivência exclusiva do eu, reveladora de intimidade com o mundo.
Este mundo é consequência de uma intimidade com a natureza. O êxtase, a contemplação e a perplexidade face à natureza constitui uma abertura ao mundo.
Por isso, a Viagem desenrola-se numa abertura ao imprevisto e à aventura; à estranheza, à aprendizagem, ao desvelamento e à revelação, correspondendo à necessidade de uma participação no real concreto, nomeadamente numa intromissão na portugalidade e no propósito de uma visita ao passado regional como denúncia permanente dos atropelos da cópia estrangeira sem ter em conta o espírito nacional. A atitude crítica e especulativa face ao presente está, assim, presente. 


terça-feira, 5 de julho de 2011

Expressão Filosófica das Viagens da Minha Terra - Parte II

A Filosofia romântica

Resolução das antinomias:
Infinito
Eu
Ideal
Deus
Finito
Não eu
Real
Mundo

- O finito não existe fora do infinito e o infinito não existe fora do finito
- Esta ideia desemboca no inevitável Panteísmo e Imanentismo.
- Redução de todo o poder espiritual à sensibilidade (Condillac). A diversidade dos poderes espirituais depende da diversidade dos poderes sensíveis.
Fichte elaborou uma concepção do «eu» própria do idealismo alemão. O Eu constitui a realidade primordial. É o agente e o produto da acção. Por isso a sua actividade é pura e infinita. Os românticos  apoderaram-se desta concepção fitchiana do Eu e identificaram-no com o génio individual e transferiram para este a dinâmica daquele [1]. O mundo romântico está aberto ao mistério e ao sobrenatual. O verdadeiro mistério exige que o homem desvie o olhar de tudo quanto o rodeia e desça dentro de si próprio. É para o interior que se dirige o caminho misterioso.
Johann Fichte (1762-1814)
No contexto das ciências, a filosofia ocupa o lugar da fundamentação. É a base de todas as outras ciências. No contexto da filosofia tem que se procurar a proposição mais básica, isto é, o fundamento da experiência.
A Experiência é entendida de duas formas: como liberdade e como necessidade. A primeira depende do sujeito (crio uma montanha de ouro, decido ir a Bruxelas…) – inteligência (idealismo); a segunda não depende do sujeito (quando passeio por uma rua, o que vejo, o que oiço, não dependo de mim) – coisa em si (materialismo, determinismo).
Qual é, então, o fundamento da filosofia? Ao procurarmos pela crença básica, encontramos sempre um «eu». Quando digo: «pensem na parede», posso transitar indefinidamente desta forma: «pensem em quem pensou na parede». Por mais que tentamos objectivar um «eu» resta sempre um outro «eu», um «eu» que transcende qualquer pergunta e funciona como condição da unidade da consciência.
Esta descoberta do «eu puro» é puramente intuitiva e é apropriada por alguém que esteja preparado para tal. Não é puro misticismo por que pressupõe uma reflexão aturada. «Não posso mover nem um dedo da mão sem a intuição da minha autoconsciência e dos seus actos. Isto é o fundamento da vida.
O «eu puro» é um «eu transcendental». Não é um solipsismo, é supraindividual.[2]
Fichte esclarece a unidade absoluta como aquilo que é puramente encerrado em si, como a imanência, como o verdadeiro e o imutável. Trata-se de reconduzir o diverso a essa unidade e, inversamente, compreender todo o diverso a partir dessa unidade. Para a Doutrina da Ciência, isto significa: ela compreende unidade e diversidade, fundamento e fundado, princípio e principiado, reciprocamente, na sua relação necessária.
O princípio da filosofia, o seu verdadeiro ponto de partida, é o absoluto. Ele é unidade e verdade. Este absoluto é aquele acerca do qual, frisa Fichte, não está em questão «como se denomina esse ser, mas como se apreende e mantém interiormente. Denomine-se, ainda assim, [esse ser como] eu.»


[1] Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, 8ª edição, Almedina, Coimbra 1988, pág. 543 e ss.
[2] Ideias baseadas em Frederick Coplestone, Historia de la Filosofia, vol. VII, Ariel, Barcelona, 1989.

sábado, 2 de julho de 2011

Expressão Filosófica das Viagens da Minha Terra - Parte I

Romantismo como filosofia [1]


·         Significado do iluminismo  

v  O classicismo e a literatura aristocrática deixaram-se modelar por uma apatia de privilégio, perdendo uma boa dose de questionação do mundo. O Iluminismo representou um profunda mudança cultural. Imprimiu uma mudança na ideia de Estado e na arte
v  O Iluminismo trouxe um abalo a esta ordem de coisas. A modernização do Estado foi o efeito de um amplo desenvolvimento da filosofia e da ciência.
v  A mudança promoveu uma nova perspectiva face à decadência e ao analfabetismo, situação muito do agrado da intelectualidade do antigo regime.
v  A promoção de condições de acesso à cultura, padrões estéticos e de gosto foram profundamente alteradas.
v  Urgência na atribuição de liberdades fundamentais de expressão, religião e de justiça social.

·         Reacção ao iluminismo: Predilecção pelo Volkgeist

v  Com  a actividade laboriosa da burguesia, as literaturas autóctones foram ganhando novo vigor.
v  A hegemonia da razão para solucionar todos os problemas e males sociais começava a ser posta em causa.

·         Exaltação do poder da imaginação, do eu criador e o papel do sentimento e da intuição.

v  Papel de Rosseau. Sem negar a importância da razão, Rosseau limitava-a a uma das duas componentes fundamentais. A outra seria o coração. O indivíduo sensível e imaginativo na presença do mundo dado na sua imediaticidade natural e exponânea, tornou-se no bom selvagem, promovendo a imaginação.
v  O génio artísico ocupa o lugar do filósofo.
v  Procura individual do seu próprio ideal moral em detrimento das leis universais ditadas pela razão prática impessoal.
v  Concepção orgânica da natureza que vibra em uníssono com o espírito, revestida da beleza e mistério deste.
v  Sentimento e nostalgia do infinito materializado numa concepção unitária do homem e da natureza.
v  Substituição das noções de tempo estático, de determinismo absoluto, de fé e imutabilidade do gosto e do belo pelas de devir hitórico, relatividade e descrença no catolicismo.
v  Identidade entre finito e infinito.


[1] Ver Alberto Carvalho, «apresentação crítica…», in Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett, colecção textos literários, Editorial Comunicação, Lisboa, 1987, pp 17 e ss.

A Democracia Deliberativa- Jürgen Habermas

DEMOCRACIA DELIBERATIVA Jürgen Habermas   O que é a política: «é o meio pelo qual os cidadãos se tornam simultaneamente conscientes ...