terça-feira, 20 de julho de 2021

Série textos de alunos: Democracia ou Epistocracia?

 

Em primeiro lugar, há que ter em conta e saber distinguir com clareza as noções de democracia e de epistocracia. Democracia, do grego demos (povo) e kratos (poder) implica, atualmente, que todos os cidadãos de um determinado estado participam de forma igual na eleição de representantes através do sufrágio universal. A democracia abrange todas as condições socioeconómicas dos eleitores, permitindo uma participação ativa de todos os cidadãos na política. Por sua vez, a epistocracia, embora seja um conceito recente (concebido em 2003) provém do grego episteme (conhecimento científico ou verdadeiro) e kratos (poder). Num regime epistocrático, apenas os mais esclarecidos, educados e sábios exercem o poder de votar e ser eleitos.

  Hoje em dia, a democracia é encarada como o regime político mais desenvolvido devido ao seu caráter inclusivo e diverso. Assim sendo, é um regime claramente superior e mais eficaz do que a epistocracia. Isto é, em termos de probabilidade matemática e exata, permitir o voto e a candidatura a um grupo mais abrangente de pessoas (neste caso a todas as pessoas), regimes democráticos são capazes de selecionar candidatos mais aptos a governar, em resultado de se partir de uma maior amostra destes. Para justificar esta afirmação, considera-se as seguintes definições e expressões que definem o cálculo de determinada probabilidade:

-      Probabilidade de um acontecimento – é um número que mede a possibilidade de esse acontecimento se realizar;

-      A probabilidade P(A) de um acontecimento A, é a soma das probabilidades dos acontecimentos elementares que compõem A.

   (In “Probabilidades e Eliminatória”, por Maria Eugénia Graça Martins, Cecília Monteiro, José Paulo Viana e Maria Antónia Amaral Turkman)

Ou seja, quanto mais acontecimentos ocorrem, uma maior probabilidade de certa coisa acontecer é registada.

  Além disso, um regime democrático é, em comparação com a epistocracia, o único capaz de resultar na prática. Um exemplo disso será a necessidade que os epistocratas têm de fazer a seleção dos eleitores. Limitar o voto a pessoas que tivessem pelo menos o ensino superior em certas áreas ou um mestrado nessas mesmas seria um erro, já que é bastante comum pessoas com esse grau de educação não compreenderem política básica e não conhecerem os programas eleitorais. Pela lógica epistocrática, essas pessoas não estariam aptas a votar. Sendo assim, a solução seria realizar testes específicos para determinar quem tem direito ao voto e à candidatura, mas isso seria inexequível e dispendioso, tanto de fundos monetários como de tempo.

  Por outro lado, a epistocracia iria eventualmente caminhar para uma ditadura e para um constrangimento da liberdade de expressão. Não é possível garantir que não haja revoltas contra um regime que oprime ativamente indivíduos pertencentes a certos grupos sociais, por não os deixar votar e eleger os representantes que melhor se enquadram na resolução dos seus problemas enquanto membro desse grupo, seja ele étnico, social ou económico.

Um exemplo dessa revolta mencionada anteriormente é a existência de partidos políticos ou organizações, normalmente clandestinas, que lutam pela democracia em regimes de partido único. 

  Um dos argumentos epistocráticos mais fortes é o de que uma pessoa ignorante” é uma espécie de hooligan político (apoiantes fervorosos que normalmente desconhecem os programas partidários mas que, independentemente do que defenda o seu partido, o seu voto continua a ser leal a este) quando se trata do momento de votar. Já o epistocrata é, supostamente, uma pessoa ponderada que vota com base na razão. O eleitor democrático vota, segundo um epistocrata, por emoção e isso é aparentemente uma coisa menos favorável. No entanto, nenhum ser humano pode ser puramente racional ou emocional e o voto emocional não é necessariamente mau, uma vez que a emoção também é equacionada no processo de voto. 

  Tendo isto em conta, é a democracia quem dá lugar à resolução de problemas de certos grupos sociais, minorias, etc. Um epistocrata defende que a pessoa menos bem educada (que não merece o direito de votar) pode, do alto da sua ignorância, pôr em causa certas minorias ou grupos sociais ou étnicos. No entanto, é mais provável que a segurança e as condições de vida de certos grupos sejam postas em causa através do voto epistocrático. Um indivíduo de um grupo social que tenha, seja pela sua raça, etnia ou cultura, uma desvantagem à partida no sistema educativo e de emprego, tem menos probabilidade de obter o direito ao voto do que outro de um grupo ou classe social com uma vantagem sobre os demais. Com efeito, pessoas dos grupos sociais discriminados não iriam ter direito ao voto, sendo ainda mais marginalizadas e controladas por eleitores que só vivem a sua realidade e que, por mais educados que sejam, acabariam por tomar decisões egoístas e desinformadas que afetariam essas minorias, o que raramente aconteceria se o direto de voto fosse universal.  

  Portanto, pode concluir-se que a democracia é mais eficaz que a epistocracia em qualquer contexto político.

                                                      Beatriz Sobreira Guia, nº3 11ºD

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Ideias Gerais de Proudhom

 

          Pierre-Joseph Proudhom (1809-1865) 
    
         A contradição das grandes tendências económicas:
 
1. O sistema da propriedade destruidora da igualdade (capitalismo) – TESE.
2. O sistema comunista destruidor da independência – ANTÍTESE.
3. O Mutualismo (anarquismo): sociedade de produtores unidos mediante contratos livres – SÍNTESE.
 
          «A propriedade é um roubo». Significa que uma propriedade não é legítima por que quem a detém é quem não a trabalha. A sua posse, pelo contrário, o direito à sua posse está consignada na natureza humana. «Posse» significa usar a terra, os utensílios. A manutenção da independência e da dignidade humana decorre desta posse.
        A imperfeição da Revolução Francesa é consequência da aplicação dos princípios à política e não à economia. Esses princípios devem ser alargados à economia. Essa é a tarefa da revolução. 
          A manutenção de uma sociedade industrial coerente e estável na forma de um sistema trabalhado por associações de produtores, com contratos em vez de leis e companhias industriais em vez de exércitos, torna o epíteto de utópico bem aplicado a Proudhom. Para tal, seria necessário superar a profunda divisão entre classes cultas ou incultas e facilitar o uso proveitoso do ócio.

domingo, 31 de janeiro de 2021

O Processo de Escolha das Teorias Científicas.

 

I Introdução

Até há bem pouco tempo a Física mantinha o seu umbilical cordão com a Filosofia, pelo menos em termos de designação. A Filosofia Natural pressupunha essa natureza convergente do conhecimento, o seu carácter aglutinador e total. Contudo, depressa a ciência dita natural se distanciou, granjeando atenções, legítimas, diga-se, e se autopromoveu como conhecimento por excelência, permitindo o surgimento de espaços para as ciências sociais e humanas, eufemismos e apeadeiros confortáveis para a consciência dos académicos. Perante este cenário, qual o papel da filosofia? Num recente número de uma revista norte-americana, Scientific Americain (https://www.scientificamerican.com/) foi publicado um artigo da autoria de Carlo Rovelli (https://www.publico.pt/2019/11/23/ciencia/entrevista/carlo-rovelli-compreender-curvatura-espaco-tempo-quase-trip-psicadelica-1894617) cuja leitura nos remete para uma necessária simbiose entre Filosofia e Física, «Philosophy needs Physic, and Physic needs Philosophy». O autor, depois de uma breve incursão à filosofia grega, sugere-nos a dependência entre a Física e a Filosofia a partir dos primórdios da Física Quântica, afirmando que os filósofos habitualmente possuem ferramentas e habilidades (Skills) que a Física necessita e que os Físicos habitualmente não exercitam: análise conceptual, habilidade em encontrar algumas lacunas nos argumentos e procurar explicações conceptuais alternativas. Creio que o caminho poderá ser por aí para não se enfatizar os últimos desdéns votados à filosofia por Steven Weinberg, Stephen Hawking, entre outros.

Uma das clarificações e análises que o rigor filosófico pode e deve estar atento é no que diz respeito à escolha das teorias científicas, que Kuhn, Lakatos e Popper tiveram a oportunidade de desenvolver. Depois da apresentação das suas ideias, procurarei pontos de confronto e/ou convergência para, finalmente, encontrar um «porto de abrigo» que irá ao encontro da ideia de que a escolha ainda é sugerida por momentos de predominância de uma cientificidade, objectividade e racionalidade, apesar de reconhecer que esta última característica não possui a mesma conotação iluminista de universalidade.

2.       A luta Paradigmática e a resolução de Enigmas.

Na sua Obra A Estrutura das Revoluções Científicas[1], Kuhn diz ao que vem. Encetou um programa de construção histórica da ciência, um dos caminhos possíveis para alterar o modo como a ciência e os próprios cientistas se veem a si mesmos. Do percurso histórico, Kuhn vislumbrou a caraterística fundamental da ciência como processo de resolução de enigmas. Quando nos sujeitamos a resolver um enigma sabemos de antemão que tem solução. O mesmo acontece com a ciência. Perante um facto que surge no horizonte da explicação científica, considera-se que o peso heurístico do paradigma dominante bastará para assegurar a concretização do processo de investigação. No capítulo II da obra supracitada[2], são sugeridos os três focos para a investigação científica normal, que passa pela determinação do facto científico, dos casos significativos num determinado âmbito paradigmático e respectiva articulação da teoria, garantindo o rigor e a precisão. São estes os motivos que fazem da Ciência Normal, conceito primordial da epistemologia de Kuhn, um exercício conservador para a manutenção a todo o custo do Paradigma que a sustenta. Tal pode ser provado na receptividade que as teorias evolucionistas de Darwin tiveram na academia londrina. Os períodos da Ciência Normal – que consistem na institucionalização do Paradigma – regem-se pela ideia de que partimos sempre com a expectativa de resolução de um qualquer facto. Por esse motivo, a Ciência Normal testa a engenhosidade dos cientistas, determina as leis, conceitos e teorias e os Instrumentos e métodos de uso. Contudo, uma questão pode surgir, o que acontece quando surge um qualquer problema que não seja imediatamente explicado pelo paradigma dominante?

A palavra descoberta sugere que houve um momento único e uma única pessoa que a processou. Ora, Kuhn diz que a descoberta é um processo moroso. A descoberta oxigénio[3] tanto se ficou a dever a Priestley como a Lavoisier ou até a todos aqueles que contribuíram para a descoberta. Além disso, a própria constatação da existência de oxigénio não foi rapidamente aceite. Durante o séc. XVIII havia a ideia paradigmática de que todas as substâncias que se queimam têm um elemento comum: o flogisto. Foi somente com Lavoisier que se concluiu que o fenómeno da combustão deveria ser interpretado ao contrário do que ensinava a teoria flogística: em lugar de perder flogisto, elemento imaginário que não deveria existir, os corpos quando se queimam, ou se oxidam, absorvem oxigénio. A persistência da anomalia e a sua inconveniente presença, tornam a crise paradigmática em algo presente e incómoda. Como explicar as constatações darwinianas dos tentilhões à luz do criacionismo? De que modo refutar a observações de galilaicas de Vénus e de todo o movimento científico seu contemporâneo tendo como pano de fundo o geocentrismo? Num enquadramento diacrónico, é-nos fácil ridicularizar a tendências daqueles que não aceitam de imediato as novas constatações, mas Kuhn mostra que o abandono de um Paradigma é moroso e exige que um novo Paradigma possa surgir no horizonte. Aqui uma pergunta se impõe: que características deve o Paradigma emergente possuir para que seja aceite?

É comum aferirmos a ciência como uma actividade objectiva, considerando-a livre de qualquer influência valorativa ou subjectiva. Porém, para Kuhn «quando os cientistas têm de escolher entre teorias rivais, dois homens comprometidos completamente com a mesma lista de critérios para escolha podem, contudo, chegar a conclusões diferentes.»[4]. Tal constatação sugere que existem outros critérios para além da objetividade, como o critério da exactidão, da consistência, do longo alcance, da simplicidade, da fecundidade. Acrescente-se a ideia de Kuhn segundo a qual o surgimento de uma nova teoria tipicamente só surge após um fracasso na actividade normal de resolução de problemas. Uma teoria ser admiravelmente bem sucedida não significa ser totalmente bem sucedida. Existem factores internos, como a insegurança dos cientistas, o fracasso do paradigma em resolver os seus próprios problemas e factores externos que passam pelas pressões socioculturais e religiosas, que levam a supor que o surgimento de uma nova teoria necessita de larga aceitabilidade da comunidade científica que, por sua vez, não é totalmente neutra ao seu contexto sócio-cultural.

A crise do paradigma, a aplicação da ciência extraordinária como forma de resposta à persistente anomalia pode originar a revolução científica que, tal como o nome indica, promove uma mudança radical no espectro científico, evidenciando a característica de incomensurabilidade paradigmática. Que significa dizer que os paradigmas são incomensuráveis? Que os defensores de um e outro estão em conflito sobre os próprios problemas que se trata de solucionar, assim como sobre as soluções aceitáveis e que diferentes paradigmas possuem diferentes usos de noções e conceitos.

 A tese de Kuhn relativamente às escolhas das teorias é de difícil refutação. O seu quadro teórico baseia-se em pressupostos históricos como se constata nos inúmeros exemplos apresentados nas suas obras. A partir daí elabora o conceito de paradigma que está esboçado de tal forma que possui múltiplas caracterizações, desde matriz lógica, até metafísica, passando por pressupostos sociológicos e axiológicos. De tão englobante conceito facilmente pode cair em algo indefinível. Contudo, há considerações pertinentes em Kuhn. Sabemos que durante o século XIX a ideia premente transversal a todo o saber era a ideia de evolução e também de progresso. Na ciência, quase em simultâneo com o Darwinismo, surgiu a ideia de evolução de Spencer, Haeckel e outros. Do mesmo modo, na filosofia desde o idealismo alemão assim como no positivismo de Comte e Litré, o pressuposto de evolução e progresso estão presentes. De igual forma, podemos asseverar que o contexto e necessidades tecnológicas promoveram a Relatividade de Einstein. Parece, assim, indesmentível que há um ambiente que ajuda a promover uma ideia de ciência, de saber, de conhecimento e que os forma de modo indelével. Contudo, perguntar-se-á se tal legitima a ideia de relativismo e se os critérios de escolha das teorias são de facto tão «sociológicos» e até psicológicos. Kuhn parece pressupor que mais importante que as demonstrações de pureza técnica é a capacidade persuasiva dos cientistas. Parece evidente que a substituição de uma perspetiva geocêntrica por uma heliocêntrica em pleno século XVI teve de muito sociológico. As teorias quando surgem são facilmente dominadas por interesses vários que as adotam. Do mesmo modo, a resistência da ciência do século XIX relativamente às ideias evolucionistas pode ser facilmente identificada na assunção religiosa dominante. Atualmente proceder-se-á deste modo? Penso que não. Podem surgir contextos económicos e outros enquadramentos que promovam certas descobertas científicas, como são vários os exemplos, desde a investigação aeronáutica até ao surgimento de tecnologias de informação. Contudo, o processo científico tem um plano teórico que não é despiciendo, que se processa quase num patamar metafísico. Os físicos teóricos conceptualizam num arranjo abstracto de quase alheamento da realidade. O Bosão de Higgs resultou de um modelo meramente teórico elaborado em 1960, resultando na sua comprovação 50 anos depois. O que pretendo afirmar é que existe uma diferença entre a ciência e a sua aplicação, a técnica. À Física Quântica se deve muitas aplicações, entre as quais modernas formas de comunicação, porém aquando da sua conceptualização tal desiderato não estaria a ser pensado. 

Popper num artigo intitulado «A Ciência Normal e seus perigos» acrescenta mais algumas críticas de modo um pouco irónico, chegando a afirmar que o cientista «normal» é alguém de quem devemos ter pena[5] em virtude do seu espírito dogmático e a aversão à novidade. Talvez esta ciência exista nos corredores de universidades, nas consciências de certos cientistas ansiosos por ganhar respeitabilidade e atenção dos seus superiores. Mas a actividade científica é uma constante procura e caracteriza-se por uma incerteza que os modelos e padrões conservadores dificilmente conseguem acompanhar.

3.       O critério falsificacionista de Popper.

Nos antípodas de Kuhn encontramos este pensador austríaco. E a diferença começa logo na forma como Popper elabora a sua epistemologia, procurando aquilo que a ciência deve ser. Numa resposta ao Problema da Indução de Hume, Popper afirma que as teorias científicas devem proceder de um modelo hipotético-dedutivo. O resultado desta ideia será a de que não interessa como se chega à teoria, mas como se sai. Por este motivo, Popper considera mais pertinente designar a teoria de conjectura, querendo promover a ideia da permanente testabilidade da ciência. O seu modelo lógico será, portanto, o Modus Tollens. Consequentemente, uma boa teoria científica será aquela que mais predisposta estará a ser refutada. A importância de uma conjectura não está nas soluções que encontra mas nos problemas que suscita. Popper foi «levado, portanto, por considerações puramente lógicas, a substituir a teoria psicológica da indução pelo ponto de vista seguinte: em vez de esperar passivamente que as repetições nos imponham suas regularidades, procuramos de modo ativo impor regularidades ao mundo. Tentamos identificar similaridades e interpretá-las em termos de leis que inventamos. Sem nos determos em premissas, damos um salto para chegar a conclusões - que podemos precisar pôr de lado, caso as observações não as corroborem. »[6] A cada teoria científica corresponde um processo de refutações constantes e o respectivo processo evolutivo, que também é de progressão, desenvolve-se de acordo com o seguinte esquema:

P1 ® TE ® EE ® P2, sendo P1 o problema de partida, TE a teoria experimental, EE significa o processo de eliminação de erros e P2 representa os problemas finais – os que emergem das discussões e ensaios[7]. Resumindo, o esquema mostra-nos que a ciência nasce de problemas e acaba em problemas. Aliás, Popper acrescenta que todo o conhecimento se processa desta forma, seja ele objectivo ou subjectivo, prático ou teórico. Mas perceber como se deve processar a transição entre teorias exige que seja necessário esclarecer o que faz uma teoria melhor do que outra.

O que faz uma teoria melhor do que outra?

O falsificacionismo é o elemento apresentado por Popper como critério de demarcação entre ciência e não ciência. Deste modo, uma teoria será melhor do que a sua oposta se for mais falsificável, adjetivo que se relaciona com o conteúdo empírico, isto é, quanto mais uma teoria disser sobre a realidade (teoria da verdade como correspondência), mais falsificável ela é. Antes de apresentarmos o recurso utilizado por Popper para sustentar esta sua ideia, convém referir a sua definição de ciência. Na obra O Universo Aberto, a ciência é apresentada como uma construção racional cada vez mais adaptada à realidade, de modo figurativo, é como se consistisse numa construção de uma rede em constante adaptação no sentido de alcançar mais realidade. E porque a complexidade pode ser um obstáculo à falsificação, a ciência será uma supersimplificação sistemática da realidade[8]. O que temos em mira é a verdade e cada construção racional corresponde a uma aproximação a essa verdade incógnita, levando-nos a adjectivar as teorias científicas como verosimilhantes. Se recorrermos à testabilidade da conjetura de que «todos os cães têm cauda» e ela resistir-lhe, então podemos afirmar que existe uma proximidade com a realidade de que todos os cães têm cauda apesar de nunca podermos universalizar esta asserção. Significa isto que, caso surja um caso de ausência de cauda, a conjetura é automaticamente abandonada, não havendo espaço para qualquer actualização. A conjectura que a substitui possuirá, pois, um melhor enquadramento racional, «apanhará» mais realidade, será mais simples e, por isso, mais falsificável. A t2 é melhor do que a t1 porque tem assertivas mais precisas, explica mais factos, descreve-os melhor, resistiu a testes, suscita novos problemas e novos testes[9]. Por outras palavras, t2 é mais verosímil do que t1 e, curiosamente, menos provável. Quanto mais verosímil, menos provável a teoria será e mais pertinente se torna. Sem querer entrar na discussão etimológica da palavra verosimilhança, Popper prova a confusão existente entre os termos verosimilhança e probabilidade. Temos que, entre o conteúdo empírico (ce) e a Probabilidade (p), há uma relação de inversão proporcional: quanto maior o ce, menor é a p.


ce(a) <ce(a+b)> ce(b)

p(a) > p(ab) < p(b)

O critério falsificacionista é atrativo. Parece sugerir que a ciência se caracteriza por uma constante testabilidade, o que poderá encontrar exemplos significativos que assim seja. A ciência é instável, necessita de procedimentos elaborados e honestos, implica uma procura constante e uma ausência de satisfação definitiva e plena por haver alguma inovação porque logo a seguir se constrói mecanismos que sujeitam a investigação a um permanente processo crítico. Contudo, é muito comum dizer-se que o «dever ser» que caracteriza a epistemologia de Popper não lhe fornece grande legitimidade prática. Creio até que vai um pouco contra a natureza humana. Inverter a lógica da pesquisa de um processo verificacionista para um modelo falsificacionista obriga a uma inversão total na própria lógica do cientista. Inclusive, há procedimentos históricos que mostram a inadequação do falsificacionismo com a prática quotidiana de ciência. Factualmente, teorias que haviam sido aceites e que, pese embora o surgimento de factos que pareciam ir contra os modelos sugeridos, continuaram a ser aceites. Por exemplo, Nos primeiros anos de sua vida, a teoria gravitacional de Newton foi falsificada por observações da órbita lunar. Levou quase cinquenta anos para que essa falsificação fosse desviada para outras causas que não a teoria de Newton.[10] Se a teoria corpuscular de Newton fosse falsificada pelas observações que levaram à teoria ondulatória, então não seria possível proceder-se à reintegração da teoria corpuscular quando se chegou à conclusão da limitação da teoria ondulatória.

4.       Pode Lakatos resolver a encruzilhada?

Começa Lakatos por afirmar que a filosofia da ciência sem a história da ciência é vazia; a história da ciência sem a filosofia da ciência é cega[11]. Esta recuperação da frase de kant relativa ao conhecimento a priori e a posteriori mostra bem ao que Lakatos veio. Da mesma forma que Kant concilia o empirismo e o racionalismo, também Lakatos pretende conciliar Kuhn com Popper, relegando, porém, o relativismo que o repudiava e negando o falsificacionismo. Apesar do autor ter uma especial predilecção por este, rejeita-o como fenómeno preponderante no desenvolvimento científico. As teorias possuem mecanismos próprios de manutenção da progressividade. A história da ciência falseia o falsificacionismo. 

Para Lakatos, os programas de investigação científica possuem partes fundamentais: o núcleo firme da teoria, a heurística negativa e a heurística positiva. A ideia será a de «proibir» a lógica Tollens de Popper ou a anomalia de Kuhn ao âmago da teoria.

O núcleo firme de uma teoria é identificável pelas suas características fundamentais, concretizando melhor, as ideias centrais de Newton assumem-se com a afirmação do espaço e tempos absolutos e as ideias de Einstein de que o espaço e o tempo são relativos. Do mesmo modo, o núcleo irredutível de um programa geocêntrico é a ideia de que os planetas gravitam à volta da terra e do programa heliocêntrico é necessariamente o oposto. Este núcleo é protegido por uma heurística negativa que não é mais que a exigência de que, durante o desenvolvimento do programa, o núcleo irredutível deve permanecer intacto e sem modificações. Quem abandone este núcleo, abandona o modelo. Há muitos exemplos de dissidentes na história da ciência. A heurística positiva é o processo de intervenção da teoria a partir da qual se promove mecanismos de protecção a todo o custo, desenvolvendo técnicas matemáticas e experimentais adequadas[12]. Desde logo, há pontos de contacto com Kuhn. em primeiro lugar, a ênfase dada à história da ciência, apesar das diferenças introduzidas de história interna e externa[13]; a importância que os cientistas dão ao núcleo central da teoria, que Kuhn afirma assemelhar-se à noção de Paradigma .e, finalmente, a predisposição paradigmática de promover formas de adequação das teorias a novas descobertas como pode ser encontrado na heurística positiva.

O processo de substituição de teorias passa pela definição das noções de degenerescência e progresso. O progresso de uma teoria reside na capacidade de prever e descobrir novos fenómenos, é uma atividade proativa da heurística positiva. Quando a força desta se desvanece começa a dar-se mais atenção às anomalias e aos programas de investigação mais progressista. Chalmers[14] dá exemplos da substituição de programas de investigação rivais tendo como pano de fundo as investigações de Faraday e a noção de electricidade como um fluído de partículas que residiam nos corpos carregados electricamente. Todavia, estes exemplos também mostram as lacunas de Lakatos - como também de Kuhn e o correspondente conceito de incomensurabilidade - porque prova que é possível haver compromissos entre programas de investigação rivais ou até complementaridade, como o exemplo da teoria eletromagnética clássica que resultou da reconciliação dos dois programas de onde herdou o «campo» e o «electrão».

Em que ficamos?

A Ciência é o saber por excelência. Complexa, porém simplificadora; verdadeira, porém aproximada; racional, porém enquadrada no seu próprio tempo; objectiva, porém não completamente neutra. Todos estes filósofos tiveram o condão de enobrecerem o conhecimento. Parece-me evidente que em todas as épocas existe um núcleo central, uma matriz, um modelo que promove a dinâmica científica, apesar de muitas vezes só ser perceptível quando é feita a retrospecção. O sucesso de certas teorias também passa por aí, do mesmo modo que a rejeição de tantas outras. O Darwinismo impôs-se mas assistiu a resistências imensas por parte do criacionismo e respectivo ambiente científico. A ciência também é uma lógica de poder. Mas não é conservadora, como Kuhn a intitulou. Kuhn tem a vantagem de alargar o conceito de cientificidade a todas as áreas como é constatável pela capacidade explicativa do conceito central de paradigma. No entanto, Lakatos ganha uns pontos ao distinguir a história interna da história externa. Mas esta distinção não será meramente conceptual? Popper diria que sim. O falsificacionismo não é mais do que uma resposta ao indutivismo, ao problema suscitado por Hume e ao verificacionismo herdado do neopositivismo, mas tem o proveito de recuperar a racionalidade e a objectividade científica. A resposta aos testes ainda é o que define se uma teoria é melhor do que outra. Na pesquisa pura, que diversas vezes é determinada pelas necessidades circunstanciais das sociedades, a testabilidade, o controlo sistemático das variáveis, a manipulação factual e experimental ainda predomina no desenvolvimento científico e serve para o problema da demarcação. Uma boa teoria científica ainda é aquela que melhor define os momentos de investigação e melhor resposta dá aos problemas e a passagem de uma teoria para outra resulta sempre de um processo meticuloso de aplicação e de construção técnica de corroboração ou falsificação, como pode ser exemplificado por todo o aparato técnico do Bosão de Higgs. A grande vantagem do conhecimento científico é a capacidade de perceber como surge, de onde surge e para onde vai. Sabe-se que a ideia de racionalidade pura não existe na ciência. As teorias de Newton tornaram-se na base do mecanicismo que não é inseparável da ideia de ordem e criação divinas[15]. Kuhn e Lakatos tiveram o mérito de dar ênfase ao carácter comunicacional, persuasivo e argumentativo do compromisso científico, apesar do primeiro ter caído num excessivo relativismo. Esta consciência epistémica fornece à filosofia um papel de primordial utilidade na construção quase racional da ciência.

António Daniel Fernandes Pereira da Costa.



[1] Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, 5ª edição, Trad Beatriz Boeira, Nelson Boeira, Editora Perspectiva, S. Paulo, 1962.

[2] Ibidem, p.43.

[3] Ibidem, p. 77 e ss.

[4] Thomas Kuhn, A Tensão Essencial, trad. Rui Pacheco, Ed 70, Viseu, 1989, p. 388.

[5] AAVV, A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento, cultrix, S. Paulo, 1979, p 67.

[6] Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Brasília, Editora da UnB. 1980, p. 14

[7] Karl Popper, O Conhecimento e o Problema da Mente, trad Joaquim Gomes, Ed70, Lisboa, 1997, p. 23.

[8] Karl Popper, O Universo Aberto, Nuno Fonseca, Publicações Dom Quixote, Lisboa 1988, p. 59.

[9] Karl Popper, Conjeturas e Refutações, p. 258

[10] A F Chalmers, O que é a Ciência Afinal?, trad, David Filker, editora Brasiliense, 1993, p. 98.

[11] I. Lakatos, Historia de la Ciencia, trad. Diego Nicolás, Editoril Tecnos, 1987, p. 11.

[12] A. F. Chalmers, op cit, p. 160.

[13] A este propósito diga-se que a história interna diz respeito à realidade científica em si, às atividades profissionais dos seus membros e a história externa analisa o contexto civilizacional ou cultural que envolve o processo científico. Esta distinção, que Kuhn apelida de artificial, visava salvaguardar o plano do rigor científico dos fenómenos extracientíficos.

[14] A. F. Chalmers, Op cit, p. 123 e ss.

[15] John Gray, Sobre Humanos e Outros Animais, Trad. Miguel S. Pereira, Lua de Papel, 2008, p. 33

domingo, 1 de novembro de 2020

O Amor Romântico. O Caso de Mariana Alcoforado

 


Mariana Alcoforado, segundo registos, viveu 83 anos. 1640, ano da sua Graça, assistiu ao nascimento da apaixonada mais célebre da literatura portuguesa, tão célebre que foi traduzida em inúmeros países, com especial destaque em França onde surgiu a primeira edição das Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa. De França fora oriundo o objeto do seu desejo romântico de nome  Marquês Noel Bouton de Chamilly, Conde de Saint-Léger. Possivelmente seduzida pelos combinatórios fatores paisagísticos alentejanos, pela clausura a que estava destinada, pelos certamente belos gracejos do marquês francês - «Quando um homem a faz rir, uma mulher sente-se protegida» (Ugo Betti) – e, porque não dizer, pelo amor aparentemente proibido, Soror Mariana Alcoforado ficou perdida de amores com tónico óbvio de amor romântico.

Certamente que a «nossa» freira, que tantas desconfianças suscitou relativamente à autoria das suas cartas, desconhecia a vertente biológica do amor. Caso lhe dessem o contexto empírico-científico, então saberia que os volúveis circuitos cerebrais para o amor romântico são caprichosos por desígnio da natureza e certamente perguntar-se-ia por que razão mergulhamos no desespero quando perdemos alguém (Helen Fisher). Contudo, razão tem Scruton quando afirma que se tentamos descrever o desejo  sexual  com  as categorias   da   biologia   humana,   perdemos justamente a intencionalidade da emoção sexual, o seu   caráter   imediato   relativamente   ao   sujeito corporizado. O melhor é não ir pela naturalização dos afetos caso contrário perdem a intencionalidade e a característica verdadeiramente romântica. 

Não é só de perda, de dor, dor de amar, de perda de sentido, de ciúme, de posse, de entrega total e, finalmente, de resignação que as Cartas transmitem, também a frustração do seu amor não ser reconhecido.

Ao longo das cinco cartas, Mariana procura compreender a não correspondência ao seu desesperado amor, desesperado porque ausente, culpabilizando o seu amado pela situação de solidão, passando pela expressão do ciúme, acabando pela desistência perante o facto consumado da ausência. Diz Mariana, a tua disposição para me atraiçoar triunfou, afinal, sobre a justiça que devias a tudo quanto fiz por ti.

O ressentimento de que esperava a reciprocidade da dádiva revela-se em toda a sua plenitude. Não existir gratuitidade no sentimento é próprio do amor romântico, a presença do eu exige o outro de uma forma total. A descentração não existe, antes é promovida uma óbvia ideia do que se merece que se resume ao outro.

O sentir é todo o universo e a posse do outro é imperativo. Quando o corte acontece não há espaço para a racionalização. O querer viver em desespero é a condição existencial quase definitiva. Contudo, as cartas são uma forma de expiação do sofrimento, são motivadas por tentativas catárquicas de procura de alguma significação, como se a palavra ajudasse à compreensão do absurdo que é o amor romântico não correspondido.

Torna a afirmar Mariana:

Mas, antes de te deixares dominar por uma grande paixão, pensa bem no excesso das minhas dores, na incerteza dos meus projetos, na diversidade dos meus arroubos, na extravagância das minhas cartas, nas minhas confianças, nos meus desesperos, no meu ciúme! Olha que vais ser um desgraçado! Conjuro-te a que aproveites alguma coisa do estado em que me encontro e que ao menos o que sofro por ti seja de alguma utilidade!

 O acentuado desespero leva Mariana a conceber a possibilidade de entrar em comunhão de prejuízo com o seu amado. A sua alma mater, residente então em França, fá-la desejar que lhe aconteça o mesmo sofrimento, a mesma privação. Apesar de tentar que o seu desespero possua uma certa utilidade pedagógica, Mariana transmite a regra de ouro cristã de «não fazer ao outro o que não gostarias que fizessem contigo», ou pelo menos, que se forme no seu amado uma espécie de arrependimento pela tomada de consciência daquilo que promoveu a partir, possivelmente, do inicial amor cortês, não fosse o pretendente um digno oficial de cavalaria.

A fragilidade imensa que vivia – sim, porque quando falamos de amor queremos designar que nada posso sozinho - levou Mariana a descobrir nas andanças de cavaleiro uma projeção de domínio, respeito pela palavra dada – houve um tempo, no entanto, em que me dizias que eu era muito bonita[1]  -, dever de gratidão, hospitalidade, tudo características do amor cortês que certamente fizeram despertar em Mariana a proteção face ao abandono a que estava votada pela sua família. E quanto mais consciência tinha do afastamento mais encontrava a razão do próprio amor no sofrimento, levando-a a afirmar ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda, como se o seu destino fosse mesmo esse, como a descrença num retorno alimentasse a esperança desencantada, sugerindo a determinado passo que se tens algum interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me finalmente, como se a distância projetasse um desenlace de profundo abandono depois de se ter entregado de um modo total. Vai fazer um ano, faltam só alguns dias, que me entreguei inteiramente a ti. Repare-se na inscrição exata do tempo e na memória fotográfica dos momentos. Na segunda carta, Mariana surge como uma desencantada, perguntado ter-me-ás  deixado para sempre? Estou desesperada, a tua pobre Mariana já não pode mais: desfalece ao terminar esta carta. Adeus, adeus, tem pena de mim![2] O desfecho parece ser inevitável, mas sempre com a esperança renovada, porque é a esperança que alimenta o amor romântico, na crescente ausência e no encantamento da memória da consumação do amor. O mundo do amor romântico é único e a sua unicidade parte da presunção de um acesso especial (contra tudo e todos em nome do amor) à integridade, ao estado de pureza original, onde a natureza e o humano se confundem. Mariana começa a ter noção do adiamento do paraíso, do eterno sonho como que confinados a um espaço a tudo alheio e incólume a qualquer interferência contaminante, por isso pergunta, como poderia esperar que ficasses para sempre em Portugal, renunciasses à tua carreira e ao teu país para não pensares senão em mim? É a exigência da anulação do «eu» e à exaltação do «nós», como fundidos numa única entidade que repele o excesso de individuação e clama a união. 

O amor romântico antecipou a importância da linguagem no amor. Os volúveis circuitos cerebrais para o amor romântico são caprichosos por desígnio da natureza.[3] De um ponto de vista naturalista, não encontraríamos qualquer razão para sofrer. Mas também por capricho da natureza encontramos mecanismos de expansão do amor e, inevitavelmente, do sofrimento. Neste também há capricho, fundamentalmente linguístico. Melhor estaríamos se Mariana mostrasse a linguagem do Eros[4], ficamo-nos pela imaginação porque o pudor assim o exigia. Contudo, a linguagem serve para tudo, para a verdade e para a mentira. O maior receio de Mariana é que o Eros de Chamilly tenha sido meandroso e enganador: Esta ideia mata-me, e morro de  terror ao pensar que  nunca  te  houvesses  entregado  completamente  aos  nossos  prazeres.  Sim, reconheço agora a falsidade do teu arrebatamento[5][…]  Enganaste-me sempre que falaste   do   encantamento   que   sentias   quando   eslavas   a   sós   comigo. Porque foi Mariana enganada? Por que razão Mariana abandonou a realidade. Marginalizando as questões práticas? Porque o amor romântico substitui o corpo pela palavra, fazendo esquecer o quotidiano. A própria Mariana afirma «perdi  a  reputação,  expus-me  à  cólera da  minha família, à severidade das leis deste país para com as freiras, e à tua ingratidão, que me parece o maior de todos os males.[6]»

Que há de ser de mim?, pergunta Mariana na 3ª carta. Na 4º constata que está mais que convencida do meu infortúnio; a injustiça do teu procedimento não me deixa a menor dúvida, e tudo devo recear, já que me abandonaste, para rematar na 5ª carta Hei de ser toda a vida uma desgraçada!

O amor em particular e a afeição em geral resultam comummente na procura do abrigo[7], da segurança, onde resulta um prazer pela vida. Não é só na textura e luminosidade da pele que transparece a aceitação do outro, é também no encontro com o sentido da vida, onde tudo ganha significado pelo facto de não a compreendermos. O amor romântico é assim. Assemelha-se a um estado de inebriamento, a uma letargia por se ter finalmente encontrado o sentido disto tudo. Acima de tudo, Mariana quis acreditar que ambos caminhavam lado a lado, a reciprocidade de afeto seria possível, a plenitude corporal que combinava os interesses comuns era um facto. Na 5ª carta, Mariana começa a racionalizar a situação, constata que o seu amor de perdição a levou a tomar excessos que resultaram em catástrofe para a nossa capacidade de aprender o amor e desenvolver relações saudáveis. Contudo, o amor romântico é o apelo da angústia e agonia, estados existenciais fundamentais para melhor amarmos. Felicidades para Mariana.



[2] 2ª carta.

[3] Hellen Fisher, «Porque amamos? A evolução do amor Romântico», Porque Amamos: A Natureza e a Química do Amor Romântico, Lisboa, Relógio D’Água, 2008

[4] Ver Steiner, As Livros que Nunca Escrevi, Gradiva, 2008

[5] Carta 3

[6] Carta 3

[7] Bertrand Russel, A Conquista da Felicidade, Guimarães Editora, Lisboa, pág 181 e ss.


A necessidade do diálogo entre a História e a Filosofia na definição de uma epistemologia.

O presente trabalho tem por objetivo mostrar que não será possível construir uma noção apriorista da ciência, puramente conceptual. Ao invés...