domingo, 4 de março de 2012
Conjugar as duas formulações do imperativo categórico.
Existem duas formulações do imperativo categórico:
Diz Kant que «há um imperativo que, sem se basear como condição em qualquer outra intenção a atingir por um certo comportamento, ordena imediatamente este comportamento. Este imperativo é categórico. Não se relaciona com a matéria da acção e com o que dela deve resultar, mas com a forma e o princípio de que ela mesma deriva...» (Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Ed.70, pág. 52). Depois deste prelúdio, Kant enuncia o imperativo categórico desta forma: age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal (op cit, pág, 59), acrescentando-lhe outra versão: «age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio(op.cit, pág.69).
Segundo Kant, a passagem do primeiro para o segundo princípio baseia-se na necessidade de demonstrar que a lei necessária (imperativo categórico) está intimamente associada ao conceito de vontade de um ser racional em geral, isto é, procura-se saber se a lei corresponde às características fundamentais de um ser racional e se nele está implícita a boa vontade.
Considera Kant que o ser racional corresponde à noção de pessoa, entidade que possui características muito particulares que lhe fornece dignidade. O que é possuir dignidade? É ter a capacidade de julgar, escolher, possuir os seus próprios objectivos. Por isso, distingue-se dos meros objectos por estes serem meros meios que se utilizam para alcançar determinados fins. Tratar as pessoas como fins significa respeitar a sua racionalidade e, consequentemente, a sua dignidade. Por este motivo, quando coloco os meus interesses à frente de todos os outros, estou a agir no sentido de privilegiar as minhas necessidades. Consequentemente, utilizar os outros como meios consiste em negar a primeira formulação do imperativo categórico, isto é, ao colocar o mobil da ação nos meus interesses particulares estou a negar o alcance universal.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Condições necessárias e suficientes para produzir conhecimento
Conhecimento e Crença
Por
crença entendemos qualquer tipo de convicção. Não é concebível elaborar conhecimento sem que se acredite no que se afirma. Daí que a crença seja condição
necessária[1]para o conhecimento.
Por
isso considera-se contraditória a seguinte afirmação:
Sei
que a terra é redonda, mas não
acredito nisso.
|
A crença é uma condição necessária na medida em que é um
aspecto fundamental para que haja conhecimento, mas não é suficiente porque,
além da crença, há outros factores que, em conjunto, são condições necessárias
e suficientes.
Conhecimento e Verdade
Como não podemos ficar pelas crenças, temos de procurar
outras condições que completem essa crença. Assim, posso acrescentar que a
crença, para produzir conhecimento, tem de ser verdadeira. Quando digo que
Maria está na praia tenho de ter um conhecimento factivo[2] de
que a Maria está na praia. Se simplesmente julgar, erradamente, que Maria está
na praia estou a ter uma crença falsa. Portanto, sem verdade não há
conhecimento.
Ex:
O Ambrósio sabe que o céu é castanho. Esta proposição viola a facticidade do
conhecimento e, por isso, é falsa
Mas será a crença verdadeira condição necessária e
suficiente para o conhecimento?
Mais uma vez só podemos afirmar que é uma condição
necessária. Porquê?
Há
situações em que tenho uma pretensa crença verdadeira, mas que só por acaso é
verdadeira. Se se perguntar ao aluno Luisão qual a raiz quadrada de 4 e ele
responder, sem convicção e certeza, que é 2, estamos perante um acaso. Logo, é
necessário algo mais para produzirmos conhecimento. Uma crença verdadeira é
quando julgamos que a crença julga a realidade tal como ela é, mas só por
si não garante que se alcance o conhecimento
Conhecimento e Justificação
Resulta do que ficou dito que o conhecimento não pode ser
consequência do acaso. A crença verdadeira é uma condição necessária mas não
suficiente para o conhecimento se processar. Por isso, devemos pressupor que é
necessário algo mais; é fundamental, tal como refere Platão em Teeteto, numa justificação.
A
justificação é uma condição necessária para o conhecimento. Apresentar as razões para confirmar a
veracidade de uma crença é indispensável para produzir conhecimento. Justificar
é fazer uma ligação efectiva entre a crença e a realidade.
A
justificação pode revestir-se de duas formas:
a)
através
de um argumento. Os argumentos justificam afirmações a partir de outras;
b)
Através
dos sentidos, ou seja, directamente (se Ambrósio visse a meia cheia de
presentes).
Conclusão:
Conhecimento
será, então, uma crença verdadeira justificada.
S
conhece P se e só se: 1) S acredita em P.
2) P é
verdadeira.
3) S tem
uma justificação para acreditar em P.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Lógica, lógica informal, demonstração, demonstração dialética, retórica e persuasão
1. No
estudo que efetuámos sobre a lógica vimos como se estruturam os argumentos
dedutivos válidos. Partimos do pressuposto que, se as premissas forem
verdadeiras a conclusão também será verdadeira. Assim, num argumento válido as
premissas sustentam a conclusão. Esta característica da validade é atribuída a
todos os argumentos. Contudo, há argumentos que utilizam demonstrações
dialéticas, pois utilizam premissas passíveis ou não de concordância. Portanto,
aquela distinção entre demonstração e argumentação é mais formal do que real,
pois a argumentação também se estabelece a partir da lógica formal,
nomeadamente pela avaliação da validade.
Demonstração
|
Demonstração dialética
|
Se 2+2=4, então 3+1=4. 2+2=4, logo 3+1=4
|
Todos os seres têm direitos. O javali é um ser,
logo o javali tem direitos
|
É fácil constatar que a diferença
fundamental entre a demonstração e a demonstração dialética reside no facto das
premissas da demonstração dialética serem discutíveis, ao passo que as
premissas da demonstração são verdades necessárias e estabelecida, embora ambos possam ser avaliados através da lógica.
2. Em
virtude do seu carácter discutível, a demonstração dialética procura, além da
validade, a persuasão, isto é, procura a melhor forma de construir argumentos
bons. Para tal, recorre a outros instrumentos, como a retórica. Um bom
argumento procura convencer, auxiliando-se na retórica no sentido de encontrar
vias que tornem possível um maior esclarecimento e uma forma de comunicação mais eficaz.
No decurso de uma discussão, resultado da presença de um argumento dialético,
os interlocutores utilizam outros argumentos como a indução, a analogia ou os
argumentos de autoridade. Evidentemente que os devem utilizar da melhor forma
para não caírem em falácias, como pode servir de exemplo a generalização precipitada.
Para tal, o contexto, o conhecimento do auditório e outras variáveis devem ser
devidamente ponderadas.
3. Porém, não devemos esquecer a distinção entre persuasão e manipulação. Um dos ingredientes
fundamentais de qualquer argumentação reside no respeito que qualquer pessoa
merece. Para tal, a nossa intenção deve persuadir, atribuindo ao nosso
interlocutor o respeito devido, apontando as razões e dando-lhe liberdade de
pensamento, não o condicionando na sua racionalidade. A manipulação não permite
que tal aconteça. Ela sugere, não demonstra, procurando jogar com as emoções e
com o subconsciente.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Argumentação e Retórica
Retórica e lógica informal
Por “retórica” pode-se entender um conjunto de regras que têm por objectivo tornar mais clara a expressão dos argumentos; este sentido de “retórica” coincide com o que hoje se chama “lógica informal”. Mas por “retórica” pode entender-se outra coisa: a arte de persuadir independentemente da validade dos argumentos.O papel da lógica informal pode ser ilustrado com o seguinte argumento:
1) Se desejarmos apurar as capacidades cognitivas dos alunos, temos de os ensinar a formular com clareza, precisão e criatividade os problemas, teorias e argumentos filosóficos.Do ponto de vista da lógica formal é indiferente apresentar o argumento por esta ordem, ou inverter a ordem e começar por 2 em vez de 1. No entanto, o argumento é mais facilmente compreensível se começarmos por 2. A lógica informal aconselha a começar por 2 (cf. Weston, Anthony, A Arte de Argumentar, Gradiva, Lisboa, 1996, págs. 21-23).
2) Se concebemos a filosofia como uma actividade cognitiva, o objectivo do seu ensino será apurar as capacidades cognitivas dos alunos.C) Logo, se concebemos a filosofia como uma actividade cognitiva, temos de ensinar os alunos a formular com clareza, precisão e criatividade os problemas, teorias e argumentos filosóficos.
Contudo, a retórica aconselha a não mudar a ordem, precisamente pela mesma razão. Enquanto a lógica informal é uma actividade que tem como objectivo o argumento válido persuasivo, a retórica tem por objectivo único persuadir o interlocutor — e é mais fácil persuadir o interlocutor quando ele não consegue avaliar o argumento em causa por ficar confundido, uma vez que assim também não consegue refutá-lo. Enquanto a lógica informal tem por objectivo oferecer a possibilidade do pensamento crítico, a retórica tem por objectivo silenciar o pensamento crítico e persuadir a outra pessoa, independentemente da validade dos argumentos apresentados.
Nenhuma retórica pode transformar um argumento mau num bom argumento; o que a retórica pode fazer, no máximo, é disfarçá-lo; mas não ajuda a apresentar argumentos válidos nem a denunciar os inválidos. É a lógica informal que ajuda a fazer ambas as coisas.
Tanto a lógica informal como a retórica têm em conta o auditório, mas de modos distintos. Do ponto de vista da retórica qualquer argumento que convença um auditório é bom, pois a persuasão é a única medida da argumentação. Mas é evidente que as piores falácias podem persuadir muitos auditórios, e nem por isso deixarão de ser falácias, ainda que sejam falácias persuasivas (aliás, por definição, uma falácia é um argumento inválido que é persuasivo porque parece válido, e portanto a retórica é incapaz de explicar o próprio conceito de falácia). Para a lógica informal, pelo contrário, o auditório é importante mas não determina só por si a validade ou invalidade da argumentação. O auditório é importante na lógica informal porque, por exemplo, ao argumentar a favor de uma dada ideia temos de escolher premissas que consideremos verdadeiras e que sejam aceitáveis para o nosso auditório; caso contrário estaremos a falar apenas para quem já aceita as nossas ideias. É por isso que o seguinte argumento é mau:
O aborto não deve ser permitido porque é o assassínio de inocentes.Este argumento é mau porque quem não aceita a conclusão (“O aborto não deve ser permitido”) também não aceita a premissa (“O aborto é o assassínio de inocentes”). A argumentação criativa é a arte de mostrar que há argumentos válidos a favor de P que partem de premissas que quem é contra P está disposto a aceitar. E esta arte não se adquire com o estudo da retórica, mas sim com o estudo da lógica informal.
Exercícios
- “A retórica complementa a lógica e ultrapassa os seus limites.” Concorda? Porquê?
- Qual é o objecto de estudo da lógica informal?
- Qual é o objecto de estudo da retórica?
Extraído de O Lugar da Lógica na Filosofia, de Desidério Murcho (Plátano, 2003
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Conhecimento Filosófico.
O conhecimento filosófico
Quando pretendemos escrever sobre um qualquer assunto é
conveniente definir muito bem os termos com que faremos o nosso texto.
Conhecimento pode ser definido como uma crença, entendida
como algo em que nós acreditamos; verdadeira, porque tem que corresponder à
realidade e, obviamente, justificada. Não vale dizermos seja o que for sem
saber justificar o que foi dito. Nesta medida, o conhecimento refere-se sempre
a algo e visa compreendê-lo. Para tal faz-se um esforço para organizar as
ideias, no sentido de lhes fornecer uma ordem. Quando nos deparamos com uma
situação nova, somos levados a procurar uma ideia, um sentido àquilo para nos sentirmos mais seguros. Só que, por vezes, a realidade não é assim tão fácil. Há
assuntos que merecem mais a nossa atenção do que outros; assim como há assuntos
que são mais facilmente resolúveis por determinadas ciências. Um cientista
procura, através de um método e instrumentos próprios, conhecer a realidade,
dando-lhe um certo significado. Por isso, cria fórmulas químicas, modelos
matemáticos, classificações de plantas e animais… Atenção, não quer isto dizer
que a filosofia não necessita da ciência. Aliás, é imprescindível o recurso à
ciência para fazer filosofia.
Vamos fazer a ligação com a filosofia
A filosofia não envereda por estes caminhos. Os seus
recursos técnicos não são idênticos às ditas ciências naturais. Na filosofia
não se usam microscópios (embora, por vezes, seja necessário um olhar de
lince), muito menos provetas. Na filosofia recorre-se à argumentação. O
raciocínio é uma predisposição que possuímos que nos leva a pensar
sistematicamente com o objetivo de qualquer pessoa reconhecer como correto. A
razão é, deste modo, um recurso importante porque nos propõe utilizar um método
que seja imune ao individual e social. A lógica tem aqui um papel
preponderante.
Agora uma ligação com os argumentos
A correção dos nossos argumentos é uma exigência social. Daí
que a filosofia recorra de forma assídua à lógica. Esta mostra-nos quando um
argumento é ou não válido, tem ou não sentido, o que não impede que façamos as
devidas correções às premissas que sustentam a conclusão. Isso mesmo, um
argumento é um encadeamento de ideias em que a última é sempre expressão das
anteriores.
Não parece muito viável que executamos qualquer ponto de
vista a partir de uma forma desconexa, pois não permitiria que a racionalidade
do outro fosse respeitada. Também ninguém quereria ficar nesta situação porque
todos nós temos um conjunto de teses sobre a realidade que gostamos de
partilhar. As teses não são mais do que ideias que formulamos acerca dos
problemas; proposições, verdadeiras ou falsas, sobre os mais variados assuntos.
Mas sejamos sérios. Estas ideias não se podem ficar por meras opiniões, elas
devem ser sustentadas por argumentos que enalteçam a clareza e a racionalidade.
Os problemas da vida assim o exigem. (aproveito para falar de problemas).
Problemas há muitos. É comum identificarmos um problema com
uma situação que apela à nossa intervenção e compreensão, no sentido de ser
clarificado para nosso benefício. Mas atenção, a filosofia não se debruça sobre
o problema, por exemplo, da transmissão de certas doenças; os problemas da
filosofia correspondem às designadas crenças básicas, crenças que servem de
apoio a todas as outras. Se estou a tentar conhecer algo é porque resolvi uma
questão que lhe serve de referência: o que é o conhecimento? Da mesma forma, se
for crente é porque confio na crença básica do crente: Deus existe. Se ouço uma
música e dela usufruir, encontro-me em condições de descrever uma crença
básica: o que é arte? Quando me dirijo a uma urna no sentido de votar, encontro
neste ato uma pergunta básica: o que é a política? Numa situação de
comportamento moral sei, ou devia saber, responder à pergunta: o que é o bem? O
que é o mal?
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