domingo, 31 de janeiro de 2021

O Processo de Escolha das Teorias Científicas.

 

I Introdução

Até há bem pouco tempo a Física mantinha o seu umbilical cordão com a Filosofia, pelo menos em termos de designação. A Filosofia Natural pressupunha essa natureza convergente do conhecimento, o seu carácter aglutinador e total. Contudo, depressa a ciência dita natural se distanciou, granjeando atenções, legítimas, diga-se, e se autopromoveu como conhecimento por excelência, permitindo o surgimento de espaços para as ciências sociais e humanas, eufemismos e apeadeiros confortáveis para a consciência dos académicos. Perante este cenário, qual o papel da filosofia? Num recente número de uma revista norte-americana, Scientific Americain (https://www.scientificamerican.com/) foi publicado um artigo da autoria de Carlo Rovelli (https://www.publico.pt/2019/11/23/ciencia/entrevista/carlo-rovelli-compreender-curvatura-espaco-tempo-quase-trip-psicadelica-1894617) cuja leitura nos remete para uma necessária simbiose entre Filosofia e Física, «Philosophy needs Physic, and Physic needs Philosophy». O autor, depois de uma breve incursão à filosofia grega, sugere-nos a dependência entre a Física e a Filosofia a partir dos primórdios da Física Quântica, afirmando que os filósofos habitualmente possuem ferramentas e habilidades (Skills) que a Física necessita e que os Físicos habitualmente não exercitam: análise conceptual, habilidade em encontrar algumas lacunas nos argumentos e procurar explicações conceptuais alternativas. Creio que o caminho poderá ser por aí para não se enfatizar os últimos desdéns votados à filosofia por Steven Weinberg, Stephen Hawking, entre outros.

Uma das clarificações e análises que o rigor filosófico pode e deve estar atento é no que diz respeito à escolha das teorias científicas, que Kuhn, Lakatos e Popper tiveram a oportunidade de desenvolver. Depois da apresentação das suas ideias, procurarei pontos de confronto e/ou convergência para, finalmente, encontrar um «porto de abrigo» que irá ao encontro da ideia de que a escolha ainda é sugerida por momentos de predominância de uma cientificidade, objectividade e racionalidade, apesar de reconhecer que esta última característica não possui a mesma conotação iluminista de universalidade.

2.       A luta Paradigmática e a resolução de Enigmas.

Na sua Obra A Estrutura das Revoluções Científicas[1], Kuhn diz ao que vem. Encetou um programa de construção histórica da ciência, um dos caminhos possíveis para alterar o modo como a ciência e os próprios cientistas se veem a si mesmos. Do percurso histórico, Kuhn vislumbrou a caraterística fundamental da ciência como processo de resolução de enigmas. Quando nos sujeitamos a resolver um enigma sabemos de antemão que tem solução. O mesmo acontece com a ciência. Perante um facto que surge no horizonte da explicação científica, considera-se que o peso heurístico do paradigma dominante bastará para assegurar a concretização do processo de investigação. No capítulo II da obra supracitada[2], são sugeridos os três focos para a investigação científica normal, que passa pela determinação do facto científico, dos casos significativos num determinado âmbito paradigmático e respectiva articulação da teoria, garantindo o rigor e a precisão. São estes os motivos que fazem da Ciência Normal, conceito primordial da epistemologia de Kuhn, um exercício conservador para a manutenção a todo o custo do Paradigma que a sustenta. Tal pode ser provado na receptividade que as teorias evolucionistas de Darwin tiveram na academia londrina. Os períodos da Ciência Normal – que consistem na institucionalização do Paradigma – regem-se pela ideia de que partimos sempre com a expectativa de resolução de um qualquer facto. Por esse motivo, a Ciência Normal testa a engenhosidade dos cientistas, determina as leis, conceitos e teorias e os Instrumentos e métodos de uso. Contudo, uma questão pode surgir, o que acontece quando surge um qualquer problema que não seja imediatamente explicado pelo paradigma dominante?

A palavra descoberta sugere que houve um momento único e uma única pessoa que a processou. Ora, Kuhn diz que a descoberta é um processo moroso. A descoberta oxigénio[3] tanto se ficou a dever a Priestley como a Lavoisier ou até a todos aqueles que contribuíram para a descoberta. Além disso, a própria constatação da existência de oxigénio não foi rapidamente aceite. Durante o séc. XVIII havia a ideia paradigmática de que todas as substâncias que se queimam têm um elemento comum: o flogisto. Foi somente com Lavoisier que se concluiu que o fenómeno da combustão deveria ser interpretado ao contrário do que ensinava a teoria flogística: em lugar de perder flogisto, elemento imaginário que não deveria existir, os corpos quando se queimam, ou se oxidam, absorvem oxigénio. A persistência da anomalia e a sua inconveniente presença, tornam a crise paradigmática em algo presente e incómoda. Como explicar as constatações darwinianas dos tentilhões à luz do criacionismo? De que modo refutar a observações de galilaicas de Vénus e de todo o movimento científico seu contemporâneo tendo como pano de fundo o geocentrismo? Num enquadramento diacrónico, é-nos fácil ridicularizar a tendências daqueles que não aceitam de imediato as novas constatações, mas Kuhn mostra que o abandono de um Paradigma é moroso e exige que um novo Paradigma possa surgir no horizonte. Aqui uma pergunta se impõe: que características deve o Paradigma emergente possuir para que seja aceite?

É comum aferirmos a ciência como uma actividade objectiva, considerando-a livre de qualquer influência valorativa ou subjectiva. Porém, para Kuhn «quando os cientistas têm de escolher entre teorias rivais, dois homens comprometidos completamente com a mesma lista de critérios para escolha podem, contudo, chegar a conclusões diferentes.»[4]. Tal constatação sugere que existem outros critérios para além da objetividade, como o critério da exactidão, da consistência, do longo alcance, da simplicidade, da fecundidade. Acrescente-se a ideia de Kuhn segundo a qual o surgimento de uma nova teoria tipicamente só surge após um fracasso na actividade normal de resolução de problemas. Uma teoria ser admiravelmente bem sucedida não significa ser totalmente bem sucedida. Existem factores internos, como a insegurança dos cientistas, o fracasso do paradigma em resolver os seus próprios problemas e factores externos que passam pelas pressões socioculturais e religiosas, que levam a supor que o surgimento de uma nova teoria necessita de larga aceitabilidade da comunidade científica que, por sua vez, não é totalmente neutra ao seu contexto sócio-cultural.

A crise do paradigma, a aplicação da ciência extraordinária como forma de resposta à persistente anomalia pode originar a revolução científica que, tal como o nome indica, promove uma mudança radical no espectro científico, evidenciando a característica de incomensurabilidade paradigmática. Que significa dizer que os paradigmas são incomensuráveis? Que os defensores de um e outro estão em conflito sobre os próprios problemas que se trata de solucionar, assim como sobre as soluções aceitáveis e que diferentes paradigmas possuem diferentes usos de noções e conceitos.

 A tese de Kuhn relativamente às escolhas das teorias é de difícil refutação. O seu quadro teórico baseia-se em pressupostos históricos como se constata nos inúmeros exemplos apresentados nas suas obras. A partir daí elabora o conceito de paradigma que está esboçado de tal forma que possui múltiplas caracterizações, desde matriz lógica, até metafísica, passando por pressupostos sociológicos e axiológicos. De tão englobante conceito facilmente pode cair em algo indefinível. Contudo, há considerações pertinentes em Kuhn. Sabemos que durante o século XIX a ideia premente transversal a todo o saber era a ideia de evolução e também de progresso. Na ciência, quase em simultâneo com o Darwinismo, surgiu a ideia de evolução de Spencer, Haeckel e outros. Do mesmo modo, na filosofia desde o idealismo alemão assim como no positivismo de Comte e Litré, o pressuposto de evolução e progresso estão presentes. De igual forma, podemos asseverar que o contexto e necessidades tecnológicas promoveram a Relatividade de Einstein. Parece, assim, indesmentível que há um ambiente que ajuda a promover uma ideia de ciência, de saber, de conhecimento e que os forma de modo indelével. Contudo, perguntar-se-á se tal legitima a ideia de relativismo e se os critérios de escolha das teorias são de facto tão «sociológicos» e até psicológicos. Kuhn parece pressupor que mais importante que as demonstrações de pureza técnica é a capacidade persuasiva dos cientistas. Parece evidente que a substituição de uma perspetiva geocêntrica por uma heliocêntrica em pleno século XVI teve de muito sociológico. As teorias quando surgem são facilmente dominadas por interesses vários que as adotam. Do mesmo modo, a resistência da ciência do século XIX relativamente às ideias evolucionistas pode ser facilmente identificada na assunção religiosa dominante. Atualmente proceder-se-á deste modo? Penso que não. Podem surgir contextos económicos e outros enquadramentos que promovam certas descobertas científicas, como são vários os exemplos, desde a investigação aeronáutica até ao surgimento de tecnologias de informação. Contudo, o processo científico tem um plano teórico que não é despiciendo, que se processa quase num patamar metafísico. Os físicos teóricos conceptualizam num arranjo abstracto de quase alheamento da realidade. O Bosão de Higgs resultou de um modelo meramente teórico elaborado em 1960, resultando na sua comprovação 50 anos depois. O que pretendo afirmar é que existe uma diferença entre a ciência e a sua aplicação, a técnica. À Física Quântica se deve muitas aplicações, entre as quais modernas formas de comunicação, porém aquando da sua conceptualização tal desiderato não estaria a ser pensado. 

Popper num artigo intitulado «A Ciência Normal e seus perigos» acrescenta mais algumas críticas de modo um pouco irónico, chegando a afirmar que o cientista «normal» é alguém de quem devemos ter pena[5] em virtude do seu espírito dogmático e a aversão à novidade. Talvez esta ciência exista nos corredores de universidades, nas consciências de certos cientistas ansiosos por ganhar respeitabilidade e atenção dos seus superiores. Mas a actividade científica é uma constante procura e caracteriza-se por uma incerteza que os modelos e padrões conservadores dificilmente conseguem acompanhar.

3.       O critério falsificacionista de Popper.

Nos antípodas de Kuhn encontramos este pensador austríaco. E a diferença começa logo na forma como Popper elabora a sua epistemologia, procurando aquilo que a ciência deve ser. Numa resposta ao Problema da Indução de Hume, Popper afirma que as teorias científicas devem proceder de um modelo hipotético-dedutivo. O resultado desta ideia será a de que não interessa como se chega à teoria, mas como se sai. Por este motivo, Popper considera mais pertinente designar a teoria de conjectura, querendo promover a ideia da permanente testabilidade da ciência. O seu modelo lógico será, portanto, o Modus Tollens. Consequentemente, uma boa teoria científica será aquela que mais predisposta estará a ser refutada. A importância de uma conjectura não está nas soluções que encontra mas nos problemas que suscita. Popper foi «levado, portanto, por considerações puramente lógicas, a substituir a teoria psicológica da indução pelo ponto de vista seguinte: em vez de esperar passivamente que as repetições nos imponham suas regularidades, procuramos de modo ativo impor regularidades ao mundo. Tentamos identificar similaridades e interpretá-las em termos de leis que inventamos. Sem nos determos em premissas, damos um salto para chegar a conclusões - que podemos precisar pôr de lado, caso as observações não as corroborem. »[6] A cada teoria científica corresponde um processo de refutações constantes e o respectivo processo evolutivo, que também é de progressão, desenvolve-se de acordo com o seguinte esquema:

P1 ® TE ® EE ® P2, sendo P1 o problema de partida, TE a teoria experimental, EE significa o processo de eliminação de erros e P2 representa os problemas finais – os que emergem das discussões e ensaios[7]. Resumindo, o esquema mostra-nos que a ciência nasce de problemas e acaba em problemas. Aliás, Popper acrescenta que todo o conhecimento se processa desta forma, seja ele objectivo ou subjectivo, prático ou teórico. Mas perceber como se deve processar a transição entre teorias exige que seja necessário esclarecer o que faz uma teoria melhor do que outra.

O que faz uma teoria melhor do que outra?

O falsificacionismo é o elemento apresentado por Popper como critério de demarcação entre ciência e não ciência. Deste modo, uma teoria será melhor do que a sua oposta se for mais falsificável, adjetivo que se relaciona com o conteúdo empírico, isto é, quanto mais uma teoria disser sobre a realidade (teoria da verdade como correspondência), mais falsificável ela é. Antes de apresentarmos o recurso utilizado por Popper para sustentar esta sua ideia, convém referir a sua definição de ciência. Na obra O Universo Aberto, a ciência é apresentada como uma construção racional cada vez mais adaptada à realidade, de modo figurativo, é como se consistisse numa construção de uma rede em constante adaptação no sentido de alcançar mais realidade. E porque a complexidade pode ser um obstáculo à falsificação, a ciência será uma supersimplificação sistemática da realidade[8]. O que temos em mira é a verdade e cada construção racional corresponde a uma aproximação a essa verdade incógnita, levando-nos a adjectivar as teorias científicas como verosimilhantes. Se recorrermos à testabilidade da conjetura de que «todos os cães têm cauda» e ela resistir-lhe, então podemos afirmar que existe uma proximidade com a realidade de que todos os cães têm cauda apesar de nunca podermos universalizar esta asserção. Significa isto que, caso surja um caso de ausência de cauda, a conjetura é automaticamente abandonada, não havendo espaço para qualquer actualização. A conjectura que a substitui possuirá, pois, um melhor enquadramento racional, «apanhará» mais realidade, será mais simples e, por isso, mais falsificável. A t2 é melhor do que a t1 porque tem assertivas mais precisas, explica mais factos, descreve-os melhor, resistiu a testes, suscita novos problemas e novos testes[9]. Por outras palavras, t2 é mais verosímil do que t1 e, curiosamente, menos provável. Quanto mais verosímil, menos provável a teoria será e mais pertinente se torna. Sem querer entrar na discussão etimológica da palavra verosimilhança, Popper prova a confusão existente entre os termos verosimilhança e probabilidade. Temos que, entre o conteúdo empírico (ce) e a Probabilidade (p), há uma relação de inversão proporcional: quanto maior o ce, menor é a p.


ce(a) <ce(a+b)> ce(b)

p(a) > p(ab) < p(b)

O critério falsificacionista é atrativo. Parece sugerir que a ciência se caracteriza por uma constante testabilidade, o que poderá encontrar exemplos significativos que assim seja. A ciência é instável, necessita de procedimentos elaborados e honestos, implica uma procura constante e uma ausência de satisfação definitiva e plena por haver alguma inovação porque logo a seguir se constrói mecanismos que sujeitam a investigação a um permanente processo crítico. Contudo, é muito comum dizer-se que o «dever ser» que caracteriza a epistemologia de Popper não lhe fornece grande legitimidade prática. Creio até que vai um pouco contra a natureza humana. Inverter a lógica da pesquisa de um processo verificacionista para um modelo falsificacionista obriga a uma inversão total na própria lógica do cientista. Inclusive, há procedimentos históricos que mostram a inadequação do falsificacionismo com a prática quotidiana de ciência. Factualmente, teorias que haviam sido aceites e que, pese embora o surgimento de factos que pareciam ir contra os modelos sugeridos, continuaram a ser aceites. Por exemplo, Nos primeiros anos de sua vida, a teoria gravitacional de Newton foi falsificada por observações da órbita lunar. Levou quase cinquenta anos para que essa falsificação fosse desviada para outras causas que não a teoria de Newton.[10] Se a teoria corpuscular de Newton fosse falsificada pelas observações que levaram à teoria ondulatória, então não seria possível proceder-se à reintegração da teoria corpuscular quando se chegou à conclusão da limitação da teoria ondulatória.

4.       Pode Lakatos resolver a encruzilhada?

Começa Lakatos por afirmar que a filosofia da ciência sem a história da ciência é vazia; a história da ciência sem a filosofia da ciência é cega[11]. Esta recuperação da frase de kant relativa ao conhecimento a priori e a posteriori mostra bem ao que Lakatos veio. Da mesma forma que Kant concilia o empirismo e o racionalismo, também Lakatos pretende conciliar Kuhn com Popper, relegando, porém, o relativismo que o repudiava e negando o falsificacionismo. Apesar do autor ter uma especial predilecção por este, rejeita-o como fenómeno preponderante no desenvolvimento científico. As teorias possuem mecanismos próprios de manutenção da progressividade. A história da ciência falseia o falsificacionismo. 

Para Lakatos, os programas de investigação científica possuem partes fundamentais: o núcleo firme da teoria, a heurística negativa e a heurística positiva. A ideia será a de «proibir» a lógica Tollens de Popper ou a anomalia de Kuhn ao âmago da teoria.

O núcleo firme de uma teoria é identificável pelas suas características fundamentais, concretizando melhor, as ideias centrais de Newton assumem-se com a afirmação do espaço e tempos absolutos e as ideias de Einstein de que o espaço e o tempo são relativos. Do mesmo modo, o núcleo irredutível de um programa geocêntrico é a ideia de que os planetas gravitam à volta da terra e do programa heliocêntrico é necessariamente o oposto. Este núcleo é protegido por uma heurística negativa que não é mais que a exigência de que, durante o desenvolvimento do programa, o núcleo irredutível deve permanecer intacto e sem modificações. Quem abandone este núcleo, abandona o modelo. Há muitos exemplos de dissidentes na história da ciência. A heurística positiva é o processo de intervenção da teoria a partir da qual se promove mecanismos de protecção a todo o custo, desenvolvendo técnicas matemáticas e experimentais adequadas[12]. Desde logo, há pontos de contacto com Kuhn. em primeiro lugar, a ênfase dada à história da ciência, apesar das diferenças introduzidas de história interna e externa[13]; a importância que os cientistas dão ao núcleo central da teoria, que Kuhn afirma assemelhar-se à noção de Paradigma .e, finalmente, a predisposição paradigmática de promover formas de adequação das teorias a novas descobertas como pode ser encontrado na heurística positiva.

O processo de substituição de teorias passa pela definição das noções de degenerescência e progresso. O progresso de uma teoria reside na capacidade de prever e descobrir novos fenómenos, é uma atividade proativa da heurística positiva. Quando a força desta se desvanece começa a dar-se mais atenção às anomalias e aos programas de investigação mais progressista. Chalmers[14] dá exemplos da substituição de programas de investigação rivais tendo como pano de fundo as investigações de Faraday e a noção de electricidade como um fluído de partículas que residiam nos corpos carregados electricamente. Todavia, estes exemplos também mostram as lacunas de Lakatos - como também de Kuhn e o correspondente conceito de incomensurabilidade - porque prova que é possível haver compromissos entre programas de investigação rivais ou até complementaridade, como o exemplo da teoria eletromagnética clássica que resultou da reconciliação dos dois programas de onde herdou o «campo» e o «electrão».

Em que ficamos?

A Ciência é o saber por excelência. Complexa, porém simplificadora; verdadeira, porém aproximada; racional, porém enquadrada no seu próprio tempo; objectiva, porém não completamente neutra. Todos estes filósofos tiveram o condão de enobrecerem o conhecimento. Parece-me evidente que em todas as épocas existe um núcleo central, uma matriz, um modelo que promove a dinâmica científica, apesar de muitas vezes só ser perceptível quando é feita a retrospecção. O sucesso de certas teorias também passa por aí, do mesmo modo que a rejeição de tantas outras. O Darwinismo impôs-se mas assistiu a resistências imensas por parte do criacionismo e respectivo ambiente científico. A ciência também é uma lógica de poder. Mas não é conservadora, como Kuhn a intitulou. Kuhn tem a vantagem de alargar o conceito de cientificidade a todas as áreas como é constatável pela capacidade explicativa do conceito central de paradigma. No entanto, Lakatos ganha uns pontos ao distinguir a história interna da história externa. Mas esta distinção não será meramente conceptual? Popper diria que sim. O falsificacionismo não é mais do que uma resposta ao indutivismo, ao problema suscitado por Hume e ao verificacionismo herdado do neopositivismo, mas tem o proveito de recuperar a racionalidade e a objectividade científica. A resposta aos testes ainda é o que define se uma teoria é melhor do que outra. Na pesquisa pura, que diversas vezes é determinada pelas necessidades circunstanciais das sociedades, a testabilidade, o controlo sistemático das variáveis, a manipulação factual e experimental ainda predomina no desenvolvimento científico e serve para o problema da demarcação. Uma boa teoria científica ainda é aquela que melhor define os momentos de investigação e melhor resposta dá aos problemas e a passagem de uma teoria para outra resulta sempre de um processo meticuloso de aplicação e de construção técnica de corroboração ou falsificação, como pode ser exemplificado por todo o aparato técnico do Bosão de Higgs. A grande vantagem do conhecimento científico é a capacidade de perceber como surge, de onde surge e para onde vai. Sabe-se que a ideia de racionalidade pura não existe na ciência. As teorias de Newton tornaram-se na base do mecanicismo que não é inseparável da ideia de ordem e criação divinas[15]. Kuhn e Lakatos tiveram o mérito de dar ênfase ao carácter comunicacional, persuasivo e argumentativo do compromisso científico, apesar do primeiro ter caído num excessivo relativismo. Esta consciência epistémica fornece à filosofia um papel de primordial utilidade na construção quase racional da ciência.

António Daniel Fernandes Pereira da Costa.



[1] Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, 5ª edição, Trad Beatriz Boeira, Nelson Boeira, Editora Perspectiva, S. Paulo, 1962.

[2] Ibidem, p.43.

[3] Ibidem, p. 77 e ss.

[4] Thomas Kuhn, A Tensão Essencial, trad. Rui Pacheco, Ed 70, Viseu, 1989, p. 388.

[5] AAVV, A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento, cultrix, S. Paulo, 1979, p 67.

[6] Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Brasília, Editora da UnB. 1980, p. 14

[7] Karl Popper, O Conhecimento e o Problema da Mente, trad Joaquim Gomes, Ed70, Lisboa, 1997, p. 23.

[8] Karl Popper, O Universo Aberto, Nuno Fonseca, Publicações Dom Quixote, Lisboa 1988, p. 59.

[9] Karl Popper, Conjeturas e Refutações, p. 258

[10] A F Chalmers, O que é a Ciência Afinal?, trad, David Filker, editora Brasiliense, 1993, p. 98.

[11] I. Lakatos, Historia de la Ciencia, trad. Diego Nicolás, Editoril Tecnos, 1987, p. 11.

[12] A. F. Chalmers, op cit, p. 160.

[13] A este propósito diga-se que a história interna diz respeito à realidade científica em si, às atividades profissionais dos seus membros e a história externa analisa o contexto civilizacional ou cultural que envolve o processo científico. Esta distinção, que Kuhn apelida de artificial, visava salvaguardar o plano do rigor científico dos fenómenos extracientíficos.

[14] A. F. Chalmers, Op cit, p. 123 e ss.

[15] John Gray, Sobre Humanos e Outros Animais, Trad. Miguel S. Pereira, Lua de Papel, 2008, p. 33

domingo, 1 de novembro de 2020

O Amor Romântico. O Caso de Mariana Alcoforado

 


Mariana Alcoforado, segundo registos, viveu 83 anos. 1640, ano da sua Graça, assistiu ao nascimento da apaixonada mais célebre da literatura portuguesa, tão célebre que foi traduzida em inúmeros países, com especial destaque em França onde surgiu a primeira edição das Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa. De França fora oriundo o objeto do seu desejo romântico de nome  Marquês Noel Bouton de Chamilly, Conde de Saint-Léger. Possivelmente seduzida pelos combinatórios fatores paisagísticos alentejanos, pela clausura a que estava destinada, pelos certamente belos gracejos do marquês francês - «Quando um homem a faz rir, uma mulher sente-se protegida» (Ugo Betti) – e, porque não dizer, pelo amor aparentemente proibido, Soror Mariana Alcoforado ficou perdida de amores com tónico óbvio de amor romântico.

Certamente que a «nossa» freira, que tantas desconfianças suscitou relativamente à autoria das suas cartas, desconhecia a vertente biológica do amor. Caso lhe dessem o contexto empírico-científico, então saberia que os volúveis circuitos cerebrais para o amor romântico são caprichosos por desígnio da natureza e certamente perguntar-se-ia por que razão mergulhamos no desespero quando perdemos alguém (Helen Fisher). Contudo, razão tem Scruton quando afirma que se tentamos descrever o desejo  sexual  com  as categorias   da   biologia   humana,   perdemos justamente a intencionalidade da emoção sexual, o seu   caráter   imediato   relativamente   ao   sujeito corporizado. O melhor é não ir pela naturalização dos afetos caso contrário perdem a intencionalidade e a característica verdadeiramente romântica. 

Não é só de perda, de dor, dor de amar, de perda de sentido, de ciúme, de posse, de entrega total e, finalmente, de resignação que as Cartas transmitem, também a frustração do seu amor não ser reconhecido.

Ao longo das cinco cartas, Mariana procura compreender a não correspondência ao seu desesperado amor, desesperado porque ausente, culpabilizando o seu amado pela situação de solidão, passando pela expressão do ciúme, acabando pela desistência perante o facto consumado da ausência. Diz Mariana, a tua disposição para me atraiçoar triunfou, afinal, sobre a justiça que devias a tudo quanto fiz por ti.

O ressentimento de que esperava a reciprocidade da dádiva revela-se em toda a sua plenitude. Não existir gratuitidade no sentimento é próprio do amor romântico, a presença do eu exige o outro de uma forma total. A descentração não existe, antes é promovida uma óbvia ideia do que se merece que se resume ao outro.

O sentir é todo o universo e a posse do outro é imperativo. Quando o corte acontece não há espaço para a racionalização. O querer viver em desespero é a condição existencial quase definitiva. Contudo, as cartas são uma forma de expiação do sofrimento, são motivadas por tentativas catárquicas de procura de alguma significação, como se a palavra ajudasse à compreensão do absurdo que é o amor romântico não correspondido.

Torna a afirmar Mariana:

Mas, antes de te deixares dominar por uma grande paixão, pensa bem no excesso das minhas dores, na incerteza dos meus projetos, na diversidade dos meus arroubos, na extravagância das minhas cartas, nas minhas confianças, nos meus desesperos, no meu ciúme! Olha que vais ser um desgraçado! Conjuro-te a que aproveites alguma coisa do estado em que me encontro e que ao menos o que sofro por ti seja de alguma utilidade!

 O acentuado desespero leva Mariana a conceber a possibilidade de entrar em comunhão de prejuízo com o seu amado. A sua alma mater, residente então em França, fá-la desejar que lhe aconteça o mesmo sofrimento, a mesma privação. Apesar de tentar que o seu desespero possua uma certa utilidade pedagógica, Mariana transmite a regra de ouro cristã de «não fazer ao outro o que não gostarias que fizessem contigo», ou pelo menos, que se forme no seu amado uma espécie de arrependimento pela tomada de consciência daquilo que promoveu a partir, possivelmente, do inicial amor cortês, não fosse o pretendente um digno oficial de cavalaria.

A fragilidade imensa que vivia – sim, porque quando falamos de amor queremos designar que nada posso sozinho - levou Mariana a descobrir nas andanças de cavaleiro uma projeção de domínio, respeito pela palavra dada – houve um tempo, no entanto, em que me dizias que eu era muito bonita[1]  -, dever de gratidão, hospitalidade, tudo características do amor cortês que certamente fizeram despertar em Mariana a proteção face ao abandono a que estava votada pela sua família. E quanto mais consciência tinha do afastamento mais encontrava a razão do próprio amor no sofrimento, levando-a a afirmar ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda, como se o seu destino fosse mesmo esse, como a descrença num retorno alimentasse a esperança desencantada, sugerindo a determinado passo que se tens algum interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me finalmente, como se a distância projetasse um desenlace de profundo abandono depois de se ter entregado de um modo total. Vai fazer um ano, faltam só alguns dias, que me entreguei inteiramente a ti. Repare-se na inscrição exata do tempo e na memória fotográfica dos momentos. Na segunda carta, Mariana surge como uma desencantada, perguntado ter-me-ás  deixado para sempre? Estou desesperada, a tua pobre Mariana já não pode mais: desfalece ao terminar esta carta. Adeus, adeus, tem pena de mim![2] O desfecho parece ser inevitável, mas sempre com a esperança renovada, porque é a esperança que alimenta o amor romântico, na crescente ausência e no encantamento da memória da consumação do amor. O mundo do amor romântico é único e a sua unicidade parte da presunção de um acesso especial (contra tudo e todos em nome do amor) à integridade, ao estado de pureza original, onde a natureza e o humano se confundem. Mariana começa a ter noção do adiamento do paraíso, do eterno sonho como que confinados a um espaço a tudo alheio e incólume a qualquer interferência contaminante, por isso pergunta, como poderia esperar que ficasses para sempre em Portugal, renunciasses à tua carreira e ao teu país para não pensares senão em mim? É a exigência da anulação do «eu» e à exaltação do «nós», como fundidos numa única entidade que repele o excesso de individuação e clama a união. 

O amor romântico antecipou a importância da linguagem no amor. Os volúveis circuitos cerebrais para o amor romântico são caprichosos por desígnio da natureza.[3] De um ponto de vista naturalista, não encontraríamos qualquer razão para sofrer. Mas também por capricho da natureza encontramos mecanismos de expansão do amor e, inevitavelmente, do sofrimento. Neste também há capricho, fundamentalmente linguístico. Melhor estaríamos se Mariana mostrasse a linguagem do Eros[4], ficamo-nos pela imaginação porque o pudor assim o exigia. Contudo, a linguagem serve para tudo, para a verdade e para a mentira. O maior receio de Mariana é que o Eros de Chamilly tenha sido meandroso e enganador: Esta ideia mata-me, e morro de  terror ao pensar que  nunca  te  houvesses  entregado  completamente  aos  nossos  prazeres.  Sim, reconheço agora a falsidade do teu arrebatamento[5][…]  Enganaste-me sempre que falaste   do   encantamento   que   sentias   quando   eslavas   a   sós   comigo. Porque foi Mariana enganada? Por que razão Mariana abandonou a realidade. Marginalizando as questões práticas? Porque o amor romântico substitui o corpo pela palavra, fazendo esquecer o quotidiano. A própria Mariana afirma «perdi  a  reputação,  expus-me  à  cólera da  minha família, à severidade das leis deste país para com as freiras, e à tua ingratidão, que me parece o maior de todos os males.[6]»

Que há de ser de mim?, pergunta Mariana na 3ª carta. Na 4º constata que está mais que convencida do meu infortúnio; a injustiça do teu procedimento não me deixa a menor dúvida, e tudo devo recear, já que me abandonaste, para rematar na 5ª carta Hei de ser toda a vida uma desgraçada!

O amor em particular e a afeição em geral resultam comummente na procura do abrigo[7], da segurança, onde resulta um prazer pela vida. Não é só na textura e luminosidade da pele que transparece a aceitação do outro, é também no encontro com o sentido da vida, onde tudo ganha significado pelo facto de não a compreendermos. O amor romântico é assim. Assemelha-se a um estado de inebriamento, a uma letargia por se ter finalmente encontrado o sentido disto tudo. Acima de tudo, Mariana quis acreditar que ambos caminhavam lado a lado, a reciprocidade de afeto seria possível, a plenitude corporal que combinava os interesses comuns era um facto. Na 5ª carta, Mariana começa a racionalizar a situação, constata que o seu amor de perdição a levou a tomar excessos que resultaram em catástrofe para a nossa capacidade de aprender o amor e desenvolver relações saudáveis. Contudo, o amor romântico é o apelo da angústia e agonia, estados existenciais fundamentais para melhor amarmos. Felicidades para Mariana.



[2] 2ª carta.

[3] Hellen Fisher, «Porque amamos? A evolução do amor Romântico», Porque Amamos: A Natureza e a Química do Amor Romântico, Lisboa, Relógio D’Água, 2008

[4] Ver Steiner, As Livros que Nunca Escrevi, Gradiva, 2008

[5] Carta 3

[6] Carta 3

[7] Bertrand Russel, A Conquista da Felicidade, Guimarães Editora, Lisboa, pág 181 e ss.


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Questões de Exame - Arte


1ª fase 2020
9. O facto de, em muitas obras de arte, os artistas terem fingido sentir o que realmente não sentiram pode ser usado como uma objeção à definição
(A) formalista da arte.
(B) representacional da arte.
(C) histórica da arte.
(D) expressivista da arte.

1ª fase 2020
10. Apenas os defensores das teorias essencialistas da arte consideram que
(A) há condições necessárias e suficientes para que um objeto seja arte.
(B) a arte pode ser definida.
(C) há propriedades intrínsecas dos objetos que os tornam obras de arte.
(D) a arte é essencial à vida.

2021, 1ª fase, V1

7. Que teoria permite classificar como arte qualquer objeto que seja intencionalmente produzido por alguém, de modo a ser encarado como o foram as obras de arte preexistentes?

(A) Teoria institucional.

(B) Teoria histórica.

(C) Teoria expressivista.

(D) Teoria representacional.

https://www.examesnacionais.com.pt/exames-nacionais/11ano/2021-1fase/Filosofia-Criterios.pdf


2021, 1ª fase, V1

 

8. Leia o texto seguinte.

As pessoas sentimentais [...] consideram uma heresia que alguém não participe nas revoluções e tumultos do coração, que elas encontram em toda e qualquer peça musical e de que sinceramente participam. Caso não se participe, passa-se então por ser manifestamente «frio», «insensível», «de natureza intelectual». […] O leigo e o sentimental costumam perguntar de bom grado se uma música é alegre ou triste […]. Mas, a partir do momento em que se utiliza a música apenas como meio para fomentar em nós uma certa disposição de ânimo [...], a música cessa de atuar como arte.

E. Hanslick, Do Belo Musical, Lisboa, Edições 70, 2002, pp. 81-84. (Texto adaptado)

 

No excerto transcrito, há uma crítica da ideia de que a arte musical

(A) é essencialmente expressão de emoções.

(B) pode deixar de ser uma arte.

(C) tem uma natureza intelectual.

(D) é essencialmente forma significante.

 

https://www.examesnacionais.com.pt/exames-nacionais/11ano/2021-1fase/Filosofia-Criterios.pdf


2022, 1ª fase

16. Leia o texto seguinte. Se uma forma representativa tiver algum interesse, é como forma, e não como representação. O elemento representativo numa obra de arte pode ou não ser prejudicial; é sempre irrelevante. C. Bell, Arte, Lisboa, Texto & Grafia, 2009, p. 31. (Texto adaptado)

 Concorda com a perspetiva apresentada no texto? Na sua resposta, deve:

−− formular o problema considerado no texto;

 −− identificar a perspetiva defendida no texto;

−− apresentar inequivocamente a sua posição acerca da perspetiva defendida no texto;

−− argumentar a favor da sua posição.

 

Critérios: https://www.examesnacionais.com.pt/exames-nacionais/11ano/2022-1fase/Filosofia-Criterios.pdf



2.ª fase 2022
16. Distinga as definições essencialistas da arte das definições não essencialistas da arte.


2023, 1ª fase

9. A teoria formalista da arte é incompatível com a ideia de que 
(A) qualquer obra de arte tem de veicular uma mensagem. 
(B) a arte tem uma natureza objetiva. 
(C) a arte produz alguma emoção em quem a reconhece. 
(D) nem todos estão aptos a apreciar a arte. 

10. O problema da definição da arte pode ser formulado do modo seguinte. 
(A) Quais são as propriedades estéticas que tornam as obras de arte valiosas? 
(B) Quais são as características essenciais das obras-primas? 
(C) Quais são os critérios que permitem distinguir a boa arte da má arte? 
(D) Quais são as condições necessárias e suficientes da arte? 

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5. Selecione a opção que refere definições de arte de acordo com as quais a intenção do artista ao produzir um dado objeto é indispensável para que esse objeto seja arte.
(A) Definições expressivista e formalista. 
(B) Definições expressivista e histórica.
(C) Definições institucional e histórica. 
(D) Definições institucional e formalista. 

Critérios: https://www.examesnacionais.com.pt/exames-nacionais/11ano/2023-2fase/Filosofia-Criterios.pdf

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6. Admitir a existência do artista isolado, que cria solitariamente arte que só ele conhece, é incompatível com a perspetiva 
(A) representacional da arte, pois mais ninguém poderia saber o que representam as obras desse artista. (B) histórica da arte, pois tal artista não faria parte da história da arte. 
(C) institucional da arte, pois tal artista não faria parte do mundo da arte. 
(D) formalista da arte, pois mais ninguém sentiria emoção estética perante as obras desse artista.

Critérios: https://www.examesnacionais.com.pt/exames-nacionais/11ano/2023-2fase/Filosofia-Criterios.pdf
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2023-2024 1.ª fase

16. Atente no que escreve o filósofo da arte George Dickie. O mundo da arte não requer procedimentos rígidos; admite, encoraja mesmo, a frivolidade e o capricho, sem sacrificar a seriedade dos seus objetivos. G. Dickie, «O que é a arte?», in C. d’Orey (org.), O Que É a Arte?, Lisboa, Dinalivro, 2007, p. 118. (Texto adaptado) 

O autor refere um conceito fundamental da perspetiva institucional da arte. Caracterize-o.

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 2025, 1ª fase, V1

12. Leia o texto seguinte. As reações emocionais à arte abstrata são muito duvidosas, principalmente porque não parecem estar aqui [na arte abstrata] disponíveis as estratégias que, no caso da arte representacional, proporcionam explicações óbvias da razão por que reagimos emocionalmente e daquilo a que reagimos. Um romance, um filme ou uma paisagem impressionista dão-me a imagem de um mundo humano, com cujos elementos me posso identificar ou dos quais me posso compadecer, aos quais posso reagir compassivamente ou com aversão, ou os quais posso até espelhar impensadamente, por um tipo de contágio natural. No entanto, tratando-se de uma [peça de música puramente instrumental], uma escultura minimalista ou uma pintura [...] abstrata, essas explicações parecem não ter qualquer poder. J. Levinson, Investigações Estéticas – Ensaios de filosofia da arte, Porto, Ed. Afrontamento, 2020, pp. 51-52. (Texto adaptado) 

 No texto, pode ser encontrada uma crítica à teoria da arte como expressão. Na sua opinião, tal crítica põe em causa a teoria da arte como expressão? Na sua resposta, deve 
 − explicitar a crítica em causa; 
 − apresentar inequivocamente a sua posição; 
 − argumentar a favor da sua posição.

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1.ª fase 2026

15. Caracterize, de acordo com a perspetiva formalista, a relação entre arte e emoção estética. 

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1.ª fase 2026

16. Considere o texto seguinte.

 O facto de terem emergido novas formas de arte, tais como o cinema e a fotografia, e de as galerias de arte terem exibido coisas como um monte de tijolos ou uma pilha de caixas de cartão, forçou-nos a refletir acerca dos limites do nosso conceito de arte. É óbvio que a arte tem tido significados diferentes em culturas diferentes e em épocas diferentes: tem servido fins rituais e religiosos, tem servido como diversão e tem dado corpo às crenças, medos e desejos mais importantes da cultura na qual é produzida. Dantes, o que contava como arte parecia estar mais claramente definido. No entanto, nos finais do século XX, parece que chegámos a uma situação em que tudo e mais alguma coisa pode ser arte. Se isto é assim, o que fará com que um certo objeto [...], e não outro, seja digno de se chamar arte? 
N. Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 2007, pp. 235-236. (Texto adaptado) 

Argumente a favor da ideia, referida no texto, de que tudo pode ser arte. 
Na sua resposta, comece por distinguir as teorias essencialistas da arte das teorias não essencialistas. 

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2.ª fase 2026

15. De acordo com a teoria representacional, o que é preciso que uma obra tenha para ser arte?

Critérios: https://eduqa.pt/wp-content/uploads/2026/07/EX-Fil714-F2-2026-CC-VT_net.pdf
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Época especial 2026

6. De acordo com a teoria da representação, as obras de arte 
(A) não podem representar ações humanas. 
(B) podem representar seja o que for. 
(C) não imitam emoções humanas. 
(D) imitam apenas objetos físicos. 

https://iave.pt/wp-content/uploads/2026/09/EX-Fil714-EE-2026-CC-VD_net.pdf

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Época especial 2026

7. Leia o texto seguinte. Considere-se a mulher de um agricultor numa feira rural do Nebrasca, a fazer uma colagem com cascas de ovo no canto de uma mesa para as pessoas verem. Não será possível que tenha criado arte? Porém, ela e o mundo da arte existem em perfeita ignorância recíproca. Considere-se [igualmente] um índio solitário na margem do Amazonas, que se afasta da sua tribo […] para dispor seixos coloridos numa clareira […]. Não poderia também isto ser arte? J. Levinson, Investigações Estéticas, Porto, Edições Afrontamento, 2020, p. 23. (Texto adaptado) 

No texto, são sugeridos contraexemplos à definição 

(A) histórica da arte. 
(B) institucional da arte. 
(C) expressivista da arte. 
(D) formalista da arte.

https://iave.pt/wp-content/uploads/2026/09/EX-Fil714-EE-2026-CC-VD_net.pdf

quarta-feira, 20 de maio de 2020

O Sentido da Existência




Perspetiva não religiosa pessimista:


A vida é um absurdo.
A teoria pessimista:
A existência humana é absurda. Nada do que fazemos faz sentido. Caso desapareçamos amanhã, isso não faz qualquer significado.
O argumento da morte:
A morte é um corte com tudo aquilo que nos esforçamos por alcançar. Dado que a morte nos impede de alcançar, a nossa existência é absurda.
O Argumento do Tédio: 
A nossa vida é feita por uma sucessão de realizações que, logo após a execução de cada uma, perdem logo o interesse. Assim, nenhumas das realizações são importantes. 

A resposta religiosa:


A vida só tem sentido a partir de Deus.
O argumento do propósito: 
Deus dá sentido à nossa existência porque lhe dá um propósito ou finalidade de valor. O ser humano foi criado por Deus por isso a vida tem um objectivo, seja ele qual for, proposto por Deus.
O argumento da eternidade:
Caso Deus não garantisse a eternidade, a vida não teria sentido. Caso Deus não garantisse a eternidade, tudo o que realizamos com esforço teria sido em vão.

Perspetiva não religiosa otimista:


A vida tem sentido se as acções forem uma entrega a actividades de valor genuíno.


O argumento da entrega e do valor genuíno: 
Se a nossa vida for uma entrega a atividades de valor genuíno, então tem sentido. A vida só terá sentido quando se executam tarefas que contribuam, pela entrega e paixão com que se executam, para o desenvolvimento do ser humano.



Deus existe?


Provas da existência de Deus
Argumentos
Objeções
Argumento Cosmológico
Todas as coisas neste mundo são causadas.
Nenhuma coisa é causa de si mesma.
Tudo o que é causado é causado por outra coisa.
Não pode haver regressão infinita.
Tem que existir uma causa primeira.
Deus é a causa primeira.

Para inferir a causa de algo necessitamos de informação sobre o que lhe deu origem. Para sabermos a causa do relógio devemos possuir informação suficiente sobre o que deu origem ao relógio. Quanto à origem do universo, pouco sabemos. Se tudo tem uma causa, não podemos asseverar que haja algo que cause sem ser causado

Argumento do Desígnio
Os organismos vivos são muito idênticos aos relógios ou a outra máquina humana.
O relógio teve que ser criado por alguém inteligente.
Portanto, também o universo tem um criador inteligente que é Deus.
Quando falam acerca do relógio, possuímos um conhecimento de fundo sobre o que causa o relógio. Contudo, relativamente ao universo, não temos informação relevante.


Mesmo se o universo tenha sido criado por Deus, ser omnipotente e perfeito, dificilmente aceitaríamos a imperfeição do mundo.

Argumento Ontológico.
A ideia de que Deus é um ser necessário.
Se Deus é perfeito, então tem necessariamente de existir. Afinal, se não existisse não seria perfeito. Se é perfeito é tudo, incluindo a existência.
Se este argumento prova que Deus existe, também prova que uma ilha perfeita existe. Podemos imaginar uma ilha perfeita que não implica necessariamente a sua existência. Do mesmo modo, a definição de Deus diz-nos apenas que tipo de ser seria Deus se existisse.


quarta-feira, 12 de junho de 2019

Rawls e Sandel


Questões

Rawls

Sandel

O que é uma sociedade justa?



É uma sociedade que não põe em causa as liberdades básicas iguais para todos nem a igualdade de oportunidades. Para que isto seja possível, a desigualdade económica terá de ser controlada para que possa reverter também a favor dos mais carenciados.


É uma sociedade que respeita os direitos fundamentais, tal como no liberalismo, mas tendo em consideração todo o contexto material de onde o indivíduo emerge.

Qual a relação entre o justo e o bem?

O justo antecede a ideia de bem. A escolha dos princípios de justiça é a condição necessária e suficiente para a definição do que é o bem. Os princípios que especificam os nossos deveres e direitos não se devem basear em nenhuma conceção particular de vida boa, mas devem ser definidos pela escolha dos indivíduos.


O bem antecede a ideia de justiça. O indivíduo possui vínculos morais sem consentimento. Há pressupostos morais que têm origem nas comunidades e tradições.


Como são escolhidos os princípios de justiça?

Os princípios de justiça são definidos pela escolha do indivíduo destituído dos seus pressupostos materiais  e espirituais através do véu de ignorância, numa escolha puramente racional e, portanto, consentidos no contrato social. Só devemos aquilo o que decorrer do consentimento.

Os princípios de justiça são determinados pela reflexão acerca da vida boa. Há obrigações de solidariedade, de escolha ou de associação que decorrem das narrativas das comunidades em que vivemos.

A necessidade do diálogo entre a História e a Filosofia na definição de uma epistemologia.

O presente trabalho tem por objetivo mostrar que não será possível construir uma noção apriorista da ciência, puramente conceptual. Ao invés...